Comer transtornado X Transtornos alimentares
- Marhya Júlia Silva Leite; Matheus Lisboa; Renata Torres; Tamiris Isabeli da Silva

- 3 de nov. de 2021
- 4 min de leitura
Não é de hoje que a cultura da dieta afeta nossa sociedade, ela já vem de um sistema de crenças instaurado há décadas, sempre valorizando a magreza como um padrão de beleza único, demonizando alimentos específicos e supervalorizando outros, o que tira a autonomia das nossas escolhas alimentares, pois somos guiadas pelas regras e crenças dessa cultura, ao invés de deixarmos nossa fome, gostos e vontades determinarem essas decisões. Mais especificamente, foi implantada uma dicotomia de alimentos, separando-os em saudáveis ou não, bons e ruins e permitidos ou proibidos, desconsiderando totalmente os diferentes significados que os alimentos carregam.
Outro ponto problemático da cultura da dieta é o estabelecimento do estigma do peso, o qual mostra discriminação com os corpos maiores, assumindo o esteriótipo de que pessoas gordas são sedentárias e não saudáveis apenas pelo formato de seu corpo, com isso, a gordofobia e o pavor de engordar entram em cena.
A fim de se evitar qualquer acúmulo de gordura corporal, comportamentos alimentares disfuncionais foram normalizados, como exercícios compensatórios, medo de engordar, contagem de calorias e macronutrientes e sentimento de culpa ao comer. Tudo isso é chamado de “comer transtornado”, o que, ao ver da sociedade, torna as pessoas mais disciplinadas quanto à alimentação em seres superiores moralmente, enquanto os menos disciplinados são vistos como preguiçosos e sem força de vontade.
Vivemos em uma cultura da dieta, onde o comer transtornado é incentivado e chamado de saúde. Todos esses aspectos colaboram para uma sociedade com cada vez mais vítimas dos transtornos alimentares, apresentando sérios desvios de comportamento relacionados à alimentação e imagem corporal.
Dessa maneira, atualmente, os perfis “fitness” são uma das maiores causas para perpetuação da cultura da dieta, pois demonstram vidas extremamente focadas num corpo “sarado”, tido como perfeito, porém, na realidade, escondem diversos procedimentos estéticos, transtornos alimentares, edição de fotos, entre outros. Assim, essa visão irreal de perfeição gera sentimentos de culpa e incapacidade nos seguidores desses perfis, a partir da comparação entre a vida mostrada pelo influenciador e a sua.
Finalmente, chega-se na Indústria da dieta, o setor que se aproveita das fragilidades dos comportamentos alimentares transtornados, criando produtos para emagrecimento, inchaço, retenção de líquidos e que atendam aos modismos alimentares, como cremes modeladores, alimentos sem glúten, sem lactose ou baixos em carboidratos, todos com um marketing agressivo e desonesto que só piora a situação frente a cultura das dietas.
Em destaque, traz-se o caso da ortorexia nervosa, oficialmente reconhecido como um transtorno alimentar e cada vez mais reconhecido como comportamento disfuncional ao comer, associado a baixa qualidade de vida, deficiências nutricionais e isolamento social. Seus comportamentos típicos são: obsessão pela alimentação saudável, compulsão por checar lista de ingredientes e tabela nutricional de alimentos, restrição de grupos alimentares e preocupação com a forma corporal.
Para definir transtornos alimentares em geral, tem-se que são condições graves e potencialmente fatais de uma doença psiquiátrica, que afetam a saúde da pessoa, possui critérios de diagnóstico bem definidos e precisam de um tratamento multidisciplinar. Ademais, eles podem afetar qualquer pessoa, independente de seu sexo, peso, cor e classe social, sendo os mais recorrentes a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e o transtorno da compulsão alimentar.
Já como principais consequências das restrições alimentares e nutricionais pode-se ocorrer anemia, palidez, unhas quebradiças, cabelos finos e fracos, osteoporose, diminuição da pressão arterial e libido, arritmia cardíaca, amenorréia, aumento do cortisol e problemas gastrointestinais. Esses comportamentos alimentares disfuncionais podem ter alguns gatilhos como: a internalização de um ideal de magreza como um sinônimo de saúde, traumas, comentários sobre o corpo, determinantes sociais da saúde, mudanças corporais dos ciclos da vida, momentos de intensa carga emocional, entre outros.
Devido a todos esses fatores, é importante que os nutricionistas estejam preparados para atender pacientes que chegam com muitas dúvidas sobre a sua relação com a comida e trazem diversos relatos que podem demonstrar comportamentos disfuncionais com a alimentação. Por isso, é necessário que o nutricionista tenha preparo para lidar com essas possíveis questões trazidas pelos indivíduos, sendo essencial nos casos de transtorno alimentar de uma equipe multidisciplinar.
Outro fator importante durante o atendimento nutricional é no cuidado com o paciente ao abordar essas questões. Explicar como as dietas não funcionam e como podem levar a comportamentos alimentares disfuncionais pode ser para alguns pacientes um momento de frustração. Devido a isso, a conversa com o paciente é essencial para que ele entenda como essas relações disfuncionais são criadas na cultura da dieta, demonstrando sempre o apoio terapêutico necessário.
Uma das grandes estimuladoras dessa cultura que promove diversos transtornos alimentares são as redes sociais sociais, que propagam corpos e vidas perfeitas, com um padrão de beleza inalcançável e informações incorretas sobre alimentação e nutrição. Essas informações muitas vezes vêm de indivíduos sem formação em nutrição, que propagam notícias e dados falsos sobre a área. Portanto, é importante que o profissional não contribua com essas desinformações e tenha compromisso com sua área ao divulgar informações sobre saúde, além de respeitar sempre a ética da atuação profissional.
Nesse processo de criar um atendimento nutricional longe da cultura da dieta é importante entender como o paciente vê sua alimentação, se é um assunto que gera sofrimento e porquê isso ocorre. Identificando estes pontos importantes é possível trabalhar da melhor forma com a alimentação do paciente, de forma a promover uma alimentação mais intuitiva, sem que o paciente precise se prender a reducionismos de alimentos e comportamentos disfuncionais.
Texto escrito por Marhya Júlia Silva Leite, Matheus Lisboa, Renata Torres e Tamiris Isabeli da Silva - Diretores de Comunicação e Marketing (Assessores de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula da nutricionista Ana Carolina Orsini.




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