Atendimento empático ao paciente com Diabetes
- Marhya Júlia Silva Leite; Matheus Lisboa; Renata Torres; Tamiris Isabeli da Silva

- 16 de nov. de 2021
- 5 min de leitura
O atendimento empático ao paciente com diabetes pode ser alcançado tanto no cotidiano, quanto pode ser aprendido. Dito isso, algo em pauta atualmente é a abordagem centrada no paciente, ou seja, o atendimento sem uma hierarquia entre paciente e profissional, mas sim em forma de equipe, em que ambos expressam opiniões e conhecimentos, a fim de firmar uma parceria de cuidado tanto técnico como prático, para contribuir para a qualidade de vida do paciente, a partir da construção de um vínculo significativo, trocas mútuas de informações, decisões compartilhadas, consideração dos valores, cultura, aspectos familiares e sociais.
Além disso, é necessário sempre um reconhecimento e abertura para compreender e apoiar as decisões do paciente, mesmo que não sejam consistentes com aquilo que seria considerado a “melhor” escolha aos olhos dos profissionais da saúde.
Atualmente há diversas obras na literatura científica de que esta forma centrada no paciente é ideal, porém continua apresentando certa dificuldade de ser plenamente adotada visto que o ensino em sua maioria é dado com uma visão amplamente biomédica. Uma revisão de literatura de 2018 buscou entender a visão do paciente sobre o cuidado com saúde, com isso o encontrado foi que os encontros são predominantemente orientados pelo modelo tradicional de cuidado, desconsiderando aspectos psicossociais e focando em aspectos físicos, em que os profissionais de saúde permanecem em uma posição de autoridade, colocando os pacientes em situação de autocobrança e culpa, limitando as oportunidades para desenvolver uma compreensão compartilhada ao contexto social - Chronic illness, 2018:14(2):79-103.
O problema desse foco prescritivo é que a prescrição de dietas não faz com que o paciente siga as recomendações, visto que pessoas têm conhecimentos básicos sobre alimentação e nutrição, mas não necessariamente conseguem aplicá-los. Da mesma forma, saber o que é uma alimentação saudável não significa uma prática mais saudável, e o fato de aumentar o conhecimento nutricional do paciente não garante a mudança de seu comportamento.
Há um movimento crescente de busca por uma nutrição com mudança de comportamento, como técnicas de entrevista motivacional, comer intuitivo e mindful eating. Porém, o uso destas ferramentas é apenas o terceiro passo quando relacionamos os passos necessários para a promoção da mudança de comportamento, segundo Fisher et al. Diabet. Med. 34, 1658-1666 (2017). O primeiro passo seria a preparação do profissional para uma nova forma de interação com o paciente, seguido do segundo passo que é caracterizado pela construção de um vínculo colaborativo com este paciente.
Mais afundo em cada passo, temos que o passo 1, ou seja, a mudança de mentalidade do profissional pode ser adquirida ao se passar de um modelo hierárquico para um modelo colaborativo, de forma a fazer perguntas, explorar as crenças e expectativas, escutar com atenção, focar na pessoa e não na doença, dizer de forma genuína que ambas as partes se encontram com o mesmo objetivo. Também é importante escolher o que é necessário ou não a ser discutido e lidar com a resistência de forma não combativa, em vez de apenas transmitir informações, julgar o paciente, falar de forma ininterrupta, focar em números, testes e comparações, distanciar-se do paciente, dizer o que é o melhor a se fazer e tentar convencê-lo de algo que não acredita ou quer fazer.
Ademais, é importante nos atentarmos ao uso de jargões, isto é, códigos linguísticos próprios de um grupo sociocultural ou profissional com vocabulário especial, de difícil compreensão ou incompreensível para não iniciados em determinado assunto, contribuindo para o afastamento de determinadas pessoas. Como comprovação disso, um estudo de 2010 revelou que 50% dos pacientes saem de um consultório sem entender o que foi falado na consulta. Por outro lado, vemos que com o tempo vínculos com os pacientes dirão qual é a linguagem acessível a cada um.
Além disso, alguns termos podem não ser tão adequados na conduta com o paciente com diabetes. Por ser uma condição crônica, o manejo da diabetes é complexo e difícil, envolvendo outros fatores além da capacidade de “autocontrole” e por isso reforçar a busca pelo “controle” pode trazer sentimentos de culpa e frustração, gerando afastamento entre o paciente e o profissional de saúde.
Os profissionais devem reconhecer que suas palavras podem ferir os pacientes, o que leva a desfechos negativos durante o atendimento. Ao valorizar as pessoas com diabetes e reforçar seus pontos fortes, utilizando uma linguagem positiva, sem julgamentos e acessível, o atendimento e o vínculo terapêutico fluem de maneira natural.
O segundo passo para o atendimento da pessoa com diabetes é a construção de um vínculo colaborativo, com o profissional colocando em prática a nova mentalidade de atendimento, como já descrito. Essa construção do vínculo é um processo que se constrói ao longo do tempo, portanto isso não ocorre em um único encontro, mas sim durante diversos atendimentos.
Não existe uma técnica específica para a criação do vínculo colaborativo, depende da visão do profissional, para que seja uma atuação transparente, com ética e colaborativa. Essa visão inclui reconhecer que os pacientes com doenças crônicas tomam as decisões sobre o tratamento, por isso é importante que o profissional não possua uma postura de “comandante”, mas sim utilizando seus conhecimentos de forma que o paciente possa utilizar isso da melhor forma, através dos seus valores e necessidades.
Outro fator importante na atuação do profissional de saúde é a empatia, que é a capacidade de compreender a realidade e o ponto de vista de outra pessoa, envolve aceitar a situação do outro, mesmo sem necessidade de concordar, sem julgamentos. A empatia pode ser dividida em emocional/afetiva e cognitiva. A primeira é a habilidade natural de perceber como a outra pessoa está se sentindo, podendo ser expressa de forma verbal ou não verbal.
Já a empatia cognitiva é uma avaliação consciente sobre o estado emocional ou a condição do outro. Geralmente esse tipo de empatia é expresso de forma verbal. Essa habilidade pode ser aprendida através da prática. Nesse processo de aprendizado da empatia cognitiva é importante notar a linguagem corporal do paciente, suas expressões faciais, escolha de palavras, tom de voz, etc, possibilitando entender como o paciente está se sentindo.
Há também o conceito de empatia clínica, que é a habilidade de reconhecer a situação única do paciente (suas perspectivas, opiniões, sentimentos), de comunicar esta compreensão e de agir de forma prestativa com aquele indivíduo. Essa empatia é uma forma de comunicação com o paciente que pode trazer como resultados: aumento da satisfação do paciente, diminuição da ansiedade, melhora da adesão ao tratamento.
Portanto, é possível perceber que os nutricionistas são capazes de ajudar os pacientes com orientações técnicas sobre alimentação que podem ter um impacto positivo na saúde e bem-estar dos indivíduos com diabetes. Isso inclui orientações sobre o monitoramento da glicemia, qualidade das refeições, planejamento de compras, preparo de refeições, etc.
É importante lembrar que essas orientações devem ser comunicadas com empatia a partir de um desejo genuíno de diminuir os desconfortos do paciente com sua condição crônica. As pessoas com diabetes têm histórias de vida complexas como todo ser humano e uma trajetória de vida convivendo com o diabetes que deve ser compreendida, validada e respeitada, buscando decisões compartilhadas.
Texto escrito por Marhya Júlia Silva Leite, Matheus Lisboa, Renata Torres e Tamiris Isabeli da Silva - Diretores de Comunicação e Marketing (Assessores de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula da nutricionista Natalia Jensen.




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