Gêneros e sexualidades
- LANCA - USP
- 26 de out. de 2022
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Para conversar sobre sexualidade como um todo precisamos pontuar sobre feminismo, sobre interseccionalidade, questões fisiológicas, questões históricas e depende de onde a pessoa parte para falar sobre este assunto e isto torna este tema tão complexo.
A própria cultura então não é um aspecto imutável, “Cultura é um conjunto de regras generativas, historicamente selecionadas pela história humana, que governam ao mesmo tempo a atividade mental e prática dos indivíduos que são membros de uma dada sociedade” (BAUMAN, Z. Ensaios sobre o conceito de cultura. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.). Também envolve aspectos éticos e morais e regras subjetivas impostas pelo convívio em sociedade e molda o aspecto geral da cultura local. Está ligado à padrões de comportamento, corpo, moda, e mudou drasticamente nos anos 2000. E por serem mutáveis, estes aspectos também moldam questões ligadas à sexualidade e a própria condição humana da perspectiva humana do ponto de vista do determinismo biológico.
“Alguns discursos pretendem abranger as lógicas corporais e a condição humana sob a perspectiva biológica [..]. A corporeidade é a partir daí subordinada à natureza.” (LE BRETON, 1953)
O que é Sexualidade? Para muitas pessoas a sexualidade se liga à orientação afetivo sexual, mas vai além, diz sobre erotismo, crenças, práticas, prazer, intimidade, reprodução e a sexualidade de cada pessoa se manifesta de forma individual através de desejos, crenças, etc. O indivíduo é multicultural, embebido numa cultura capitalista-ocidental, mas também pertence ao local e é a soma de interações de fatores biológicos, psicossociais e ambientais. E por conta de questões políticas, culturais, religiosas e jurídicas, as pessoas às vezes não expressam sua sexualidade, até por uma limitação cultural, pois se a sexualidade manifestada diferir da heteronormatividade, pode ser considerada criminosa em alguns países.
O sexo não é expresso só pela genitália externa, isso é o que diz o senso comum sobre o gênero e orientação. As epistemologias feministas e outras epistemologias ajudam a criar e definir e construir novas definições e parâmetros. Essa construção da sexualidade em cima da genitália é histórica. Não temos somente duas categorias como se diz comumente, macho e fêmea (endossexo), há um vasto espectro interssexo e este é uma condição fisiológica de nascimento em que certas condições congênitas do desenvolvimento desse sexo gonadal, anatômico ou cromossômico é atípico. O estado interessexo é descoberto no nascimento (genitália atípica) ou na puberdade ou por não desenvolverem certas características corporais (características sexuais secundárias). E na infância, muitas crianças acabam por sofrer intervenção cirúrgica de seu corpo interssexo e passam por reposição hormonal e acabam por sofrer violência sobre o corpo por uma questão cultural e imposição de uma sociedade heteronormativa.
Então gênero é uma categoria social produzida (e reproduzida) por instituições escolares, médicas, linguísticas, enfim, por uma série de forças socioculturais e institucionais. Identidade de gênero é a experiência interna e individual de pertencimento a algum, alguns, ou nenhum gênero. O gênero também é uma categorização social e se replica na sociedade por padrões comportamentais ditados e reproduzidos, sejam através de regras ou códigos (ex.: meninas vestem rosa, meninos vestem azul). Diferença entre gêneros são explicadas por aspectos socioculturais, pois culturas diferentes professam diferentes comportamentos.
E apesar da colonização e da invasão europeia e isto moldar a América Latina como uma sociedade ocidental, os povos indígenas originários tinham uma diversidade social e cultural inclusive na prática sexual, no gênero e tinham uma diferenciação social que não necessariamente partiam da diferenciação sexual, pois a identidade de gênero em alguns povos não tinha necessariamente aspectos binários.
A orientação afetivo-sexual é a maneira que uma pessoa se identifica em relação às suas tendências em interessar-se e/ou relacionar-se afetivamente, sexualmente ou romanticamente com pessoas de diferentes gêneros ou espectros: hetero, gay, lésbica, bissexual, pansexual, assexual. As práticas afetivo-sexuais não envolvem necessariamente genitália ou penetração e prática sexual na sociedade ocidental é um aspecto social construído através da penetração e do falocentrismo. Mas a sexualidade é mais fluida do que isso, pois cada um tem sua forma de obter prazer.
Variação de orientação e práticas sexuais foram tratados como psicopatia social ao longo da história, sendo tratados de forma psiquiátrica inclusive (até 1990 a Organização Mundial da Saúde considerava o homossexualismo, termo também pejorativo, uma doença).
Assim, a Biopolítica (FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber) também é uma forma de controle social, as pessoas são ensinadas a seguirem uma forma social comportamental e de união matrimonial a fim de manterem um status quo na sociedade (e isto se liga diretamente ao patriarcado). E a marginalização dos corpos trans, anda lado a lado com a fetichização destes corpos, pois os ditos “cidadãos de bem” sentem prazer em explorar estes corpos.
Texto escrito por Gabriel Lupoli, Laís de Britto e Renata Torres - Diretores de Comunicação e Marketing (Assessoria de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula ministrada pela Nutricionista Ísis Gois




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