A clínica ampliada para idosos
- LANCA - USP
- 14 de set. de 2021
- 7 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2021

A população brasileira, assim como a maior parte da população mundial, está envelhecendo. Através das pirâmides populacionais podemos ver que os países estão passando por uma transição demográfica, na qual há um aumento expressivo das faixas etárias mais velhas e uma redução das faixas etárias mais jovens. Isso demonstra o envelhecimento populacional e com isso se dá a extrema importância de compreender as complexidades no cuidado das pessoas idosas.
Por existir no imaginário popular que ser velho é algo negativo, que remete a doenças, fim da vida, etc, essa é uma fase cercada de preconceitos, que são os chamados idadismos/etarismos. Este é um processo sistemático de estereotipar os idosos justamente por serem mais velhos. O processo de envelhecimento pode ser mais agradável ou cercado de dores, a depender da forma como cada pessoa enxerga esse momento e de como a sociedade lida e trata essa população.
A definição de velhice pode se dar através de dados estatísticos, que definem as pessoas a partir de 60 anos como idosas aqui no Brasil. No entanto, é importante lembrar que o envelhecimento é um processo múltiplo e complexo de contínuas mudanças ao longo do curso da vida. A velhice, portanto, é o prolongamento e término de um processo, representado por um conjunto de modificações fisiomórficas e psicológicas ininterruptas à ação do tempo sobre as pessoas.
Por ser uma fase longa, a velhice possui algumas fases, sendo o idoso jovem a partir de 60 anos, o idoso velho a partir de 70 anos e o idoso muito velho a partir de 80 anos. Porém, o envelhecimento não é apenas cronológico, já que existem características físicas muito diferenciadas e uma grande heterogeneidade entre as fases.
A funcionalidade, ou seja, a capacidade de realizar as funções do corpo, atividades e participação social, é um fator determinante para definir o envelhecimento em um indivíduo. Esse conceito também está relacionado a uma outra definição que é a capacidade funcional, que se caracteriza como o potencial de decidir e atuar de forma independente na vida e no cotidiano. Por outro lado, a incapacidade durante o envelhecimento é um termo que abrange deficiências, limitação de atividades ou restrição na participação social.
O processo de envelhecer será diferente para cada pessoa, podendo ser divididos em 3 aspectos. O “envelhecimento primário/típico ou senescência” é aquele em que o indivíduo permanece bastante funcional até perto de sua morte, já o “envelhecimento secundário/patológico ou senilidade” é aquele acompanhado de diversas doenças que geralmente estão atreladas à perda de funcionalidade e o “envelhecimento terciário ou terminal” é a fase em que chega a morte.
O cuidado à pessoa idosa deve ter como objetivo desenvolver as capacidades e funcionalidades do indivíduo. Portanto, deve-se manter a capacidade funcional durante o curso da vida, evitando que na fase da velhice haja um grande declínio nas capacidades do indivíduo. Por isso, mudanças no ambiente são essenciais para alterar esse processo.
Um dos principais pontos de atenção durante o envelhecimento é a probabilidade de desenvolver doenças crônicas, que aumentam expressivamente nesta fase. Estas doenças são as principais causas de morbidade, incapacidade e mortalidade em todo o mundo, porém podem ser tratadas e controladas, para que as pessoas possam viver bem com essas condições.
Ademais, muitas doenças crônicas podem ser evitadas ao longo da vida, evitando também seus efeitos na velhice. Isso depende de programas e políticas públicas de envelhecimento e do apoio no âmbito comunitário e familiar. Com isso, é possível reverter, atenuar ou postergar a carga e os custos do envelhecimento. Para que isso ocorra também é necessário responsabilidades pessoais, ambientes que sejam amistosos para a faixa etária, planejamento e preparação para a velhice, práticas saudáveis por toda a vida. Isso tudo demanda uma intergeracionalidade, ou seja, um bom relacionamento entre gerações.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) propõe o conceito de envelhecimento ativo, que aborda a otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida. Este conceito remete à operacionalização do conceito de saúde da OMS: bem estar físico, mental e social, e demanda a mudança de paradigmas.
Cada indivíduo é diferente e nessa fase da vida essas heterogeneidades aumentam com as diferentes características e necessidades do envelhecimento. Nós somos seres biopsicossociais e portanto a velhice exige um cuidado que abranja toda essa complexidade.
Ao longo das fases do ciclo da vida existem fatores desfavoráveis (fatores de risco) que podem prejudicar a saúde dos indivíduos. Esses fatores podem ser genéticos, exposições ocupacionais, riscos de desenvolvimento de doenças crônicas e a alimentação da pessoa. De outro lado temos os fatores de proteção como, a educação, condições de trabalho, estilo de vida ativo, rede de relações sociais e alimentação adequada e saudável.
O aspecto psicológico é um importante fator no envelhecimento, esse aspecto é de extrema relevância no atendimento nutricional. Existem diversas teorias psicológicas sobre o curso da vida e os estágios de desenvolvimento de acordo com Erickson possuem várias etapas e a velhice seria a 8° etapa. Essa fase possui uma dualidade, com indivíduos no “senso de integridade” e outras no “senso de desespero”.
O senso de integridade é constituído pelos aspectos positivos dos estágios anteriores. Quem são essas pessoas e o que eles têm são consequências de suas próprias escolhas. Neste senso os indivíduos possuem aceitação do processo de morte, as experiências negativas são vivenciadas e compreendidas, a situação econômica e social não são barreiras para essas pessoas e não as fazem desistir e possuem senso de realização frente à vida.
Já o senso de desespero é constituído pelos aspectos negativos dos estágios anteriores da vida. O que essas pessoas são e possuem geralmente é justificado por fatores que fugiram do seu controle. Esses indivíduos não aceitam a morte como parte da vida, geralmente culpam terceiros pelas suas experiências negativas, suas condições sociais e econômicas podem prejudicá-los e costumam olhar para o passado com frustração e depreciação.
É importante que o profissional nutricionista conheça essas características, pois elas podem estar presentes nos pacientes atendidos, entendendo que tipo de envelhecimento eles tiveram e como o profissional pode contribuir para melhorar as condições de vida. Sendo necessário também lembrar que o profissional não pode mudar o curso de vida que o paciente já teve, mas sim melhorar esse processo de fim da vida.
Uma abordagem importante do envelhecimento ativo é o reconhecimento dos direitos humanos das pessoas e seus princípios de independência, participação, dignidade, assistência e autorrealização. Para esse fim é preciso um planejamento estratégico, com uma mudança de enfoque do conceito de necessidades (idoso como sujeito passivo) para o conceito de direitos, com igualdade de oportunidades e tratamento em todos os aspectos da vida, estimulando a responsabilidade das pessoas mais velhas no exercício da participação política e civil. Comer e viver são atos políticos e quando perdemos esses sensos, paramos de viver.
Tanto na velhice quanto em todas as outras fases da vida é importante lembrar que a nutrição é multidimensional, portanto, atuar como nutricionista implica em grandes desafios. Durante o envelhecimento, os aspectos biológicos são muito lembrados ao se tratar da alimentação e nutrição, levando em consideração as mudanças na composição corporal, o funcionamento dos eixos hormonais, gasto energético adequado e a prevenção/tratamento de doenças crônicas e a genética/epigenética envolvidas nesse processo.
Contudo, velhice e alimentação também envolve diversas outras questões como aposentadoria, preconceitos, limitações físicas e ambientais, e os diversos impedimentos existentes. Envelhecer e se alimentar também estão relacionados com os aspectos cognitivos, já que nessa fase há alterações corporais que vão alterar a capacidade cognitiva, como a redução no volume cerebral, que levam a esquecimentos comuns. Porém, isso pode ser preocupante quando há comprometimentos cognitivos que alterem a funcionalidade do indivíduo e que possam levar a síndromes demenciais.
Os aspectos psíquicos também são essenciais ao lidarmos com a alimentação de pessoas idosas. Momentos de tristeza, viuvez, síndrome do “ninho vazio”, solidão e mudanças nas metas de vida podem ter grande impacto nos hábitos alimentares das pessoas mais velhas.
Neste sentido, há uma grande importância da socialização nessa fase da vida. Algo que está presente também no Guia Alimentar para a População Brasileira é o ato social de comer e a preservação e estimulação do estabelecimento de redes sociais e do hábito de comensalidade. Dessa forma, a alimentação pode ser um grande aliado na formação de uma rede de apoio para as pessoas idosas.
Durante o atendimento nutricional, é importante que o nutricionista além de se ater às avaliações nutricionais também possa identificar outros importantes componentes da vida do paciente idoso. Deste modo, é importante identificar a comunidade em que o indivíduo vive, o que existe no entorno de sua região, quais as possibilidades para integração de ações pertinentes à saúde. Além de conhecer mais sobre o ambiente ao redor do paciente, conhecendo as políticas públicas que guiam a saúde pública local.
Considerando todos esses aspectos, as estratégias formuladas pelo nutricionista além de serem específicas da nutrição também deverão dialogar com outras áreas e setores, principalmente relacionadas aos estilos e hábitos de vida. Sendo assim, o atendimento nutricional irá considerar as diversas complexidades da vida envolvidas na velhice.
Outro fator importante é saber que o padrão de escolhas alimentares dos idosos envolve fatores psicológicos como atividade social, percepção de benefícios à saúde, significado dos alimentos, gostos, crenças e preferências. Essas escolhas de alimentos abrangem também fatores fisiológicos como, perda do apetite, diminuição da acuidade sensorial e olfativa, prejuízos na saúde bucal, entre outros.
Os fatores socioeconômicos são essenciais na definição das escolhas alimentares dos idosos, pois envolvem a renda do indivíduo, que muitas vezes é proveniente da aposentadoria, condições para cozinhar, distância dos lugares para compra de alimentos, disponibilidade de transporte, tempo para lazer, entre outros. Fatores como esses podem influenciar a possibilidade de uma alimentação adequada e saudável para esses indivíduos.
Portanto, podemos compreender a velhice como uma rede de fatores complexos e correlatos. Por isso pensar na alimentação do idoso vai muito além de simples recomendações de alimentos, é também considerar todos os aspectos da vida do indivíduo que envolvem seu processo de envelhecimento.
Texto escrito por Marhya Júlia Silva Leite, Tamiris Isabeli da Silva e Renata Kozoroski Alves de Almeida Torres - Assessoras de Produções Científicas da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula da professora Sandra Maria Lima Ribeiro.




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