Condicionantes socioculturais da alimentação
- Marhya Júlia Silva Leite; Tamiris Isabeli da Silva

- 1 de jun. de 2021
- 5 min de leitura

Existem diversas contribuições das ciências sociais e humanas ao campo da nutrição e alimentação, através das áreas de arqueologia, antropologia evolutiva e biológica, e sociologia. Estas áreas nos ajudam a compreender melhor o desenvolvimento da alimentação na humanidade desde a pré-história.
As influências da alimentação na vida humana se dão desde os primeiros homens e percorre por todo o processo de hominização. A espécie humana ao longo de muitos anos desenvolveu importantes artefatos para auxiliar em sua alimentação e consequente sobrevivência, através por exemplo, da criação de instrumentos de pedra elaborados. Além disso, o desenvolvimento da fala, mesmo rudimentar, também foi importante para a alimentação, pois criou um meio de comunicação dos desejos desses seres. O descobrimento do fogo também foi vital para o cozimento e preservação dos alimentos, possibilidade de migração, auxílio na fabricação de ferramentas e para todo o desenvolvimento humano ao longo da história.
Para além dos utensílios e descobertas feitas pelos primeiros seres, outros fatores nos diferenciam dos outros animais, principalmente na relação com a alimentação. Os seres humanos possuem pensamento com capacidade simbólica, transmitindo com palavras a realidade, sendo assim, também conseguem utilizar essa simbologia no ato de comer, compartilhando comidas e a sua preparação de forma consciente com seus semelhantes e ressignificando as práticas alimentares.
Sendo assim, podemos pensar a cultura, incluindo a preparação dos alimentos e as preferências alimentares, como estratégias adaptativas da evolução da espécie, desenvolvidas ao longo dos séculos. Dessa forma, é possível observar que as diferenças culturais não são naturais, mas sim construídas socialmente e historicamente por todos os indivíduos nela inseridos.
Nesse processo de construção cultural, indivíduos e coletividades são posicionados em espaços de subalternidade e superioridade, formando assim minorias alimentares. Conseguimos observar isso através da situação dos refugiados no mundo, pois são pessoas que saem do seu país de origem, muitas vezes por necessidade e não por opção, e chegam em um novo país para viverem, trazendo com eles toda a sua cultura e hábitos alimentares. O que ocorre frequentemente nesses casos é a alteração de algumas práticas alimentares desses refugiados, de forma a se adaptarem à alimentação do novo local.
Sob o olhar da antropologia também podemos refletir mais sobre como a cultura alimentar é construída sócio-historicamente. Verificamos isso através das escolhas alimentares das sociedades humanas, que fazem uma seleção entre as possibilidades alimentares, definindo o que se “pode comer” e o que “não se deve”, dentro de sua cultura. A maneira na qual essas escolhas alimentares são definidas variam entre diferentes sociedades e dentro da mesma sociedade, já que é notável as divergências entre a alimentação de classes mais altas e mais baixas.
É importante ressaltar que a alimentação também possui uma eficiência mágico-religiosa nas mais diversas culturas. Os alimentos podem comunicar indivíduos com Deus ou entidades, como fazem as oferendas em diversos rituais religiosos. Essa utilização da alimentação nas religiões podem também trazer pertencimento àqueles que seguem a crença, compartilhando as mesmas escolhas ou restrições alimentares, como no caso dos hinduístas que não comem carne de vaca ou dos judeus que não consomem carne de porco.
Já sob o aspecto da sociologia, analisar os condicionantes culturais do comer envolve também avaliar a inserção do indivíduo em seu contexto político e econômico, uma vez que a situação socioeconômica do sujeito é primordial para definir sua alimentação e nutrição. Perceber as influências da globalização e suas consequências para a alimentação mundial é essencial para pensar a realidade das pessoas e o modo como se alimentam, como compram seus alimentos, como os preparam ou como não os preparam mas os adquirem prontos, entre muitas outras conjunturas que são tanto construções materiais como simbólicas.
Todas essas contribuições das ciências sociais nos mostram como estudar um problema alimentar e nutricional é extremamente complexo e necessita de diferentes olhares das mais diversas disciplinas. Nesse aspecto, vemos também que a compreensão desse problema não ocorre através de um único saber, mas sim de uma combinação articulada de visões e olhares acerca de um assunto tão complexo como a alimentação.
Somente com uma visão ampla e interdisciplinar sobre a alimentação é que podemos explorar questões mais singulares que envolvem esse processo em diferentes grupos. Esse é o caso das especificidades culturais e alimentares que envolvem as comunidades homoeróticas de “ursos”. As pessoas dentro dessa coletividade possuem algumas características semelhantes, como: barriga protuberante, pelos abundantes e atitudes e trejeitos considerados socialmente como masculinos, rejeitando a hegemonia estética de corpos jovens e musculosos e produzindo uma forma de erotismo gerado através do volume adiposo e quantidade expressiva de pelos.
É necessário destacar que apesar das características físicas específicas do grupo, não obrigatoriamente essas pessoas terão alguma dieta específica para possuírem uma barriga protuberante, mas sim, que a existência material desse corpo cria um tipo específico de erotismo e de pertencimento a uma comunidade. Esses indivíduos com peso elevado transformaram essa característica em algo a ser apreciado e que seria um símbolo de saúde entre a coletividade, principalmente por surgirem em uma época de pandemia de AIDS, em que a magreza remetia a doenças.
Ao olharmos para essa coletividade é possível analisar como a alimentação e a saúde se relacionam com a sexualidade e o gênero dos indivíduos. A alimentação é compartilhada entre os sujeitos, principalmente em eventos e encontros, realizando churrascos, feijoadas, festas na piscina com abundância de comidas, entre outras atividades que promovem essa integração dos indivíduos, onde o desejo e atração sexual parecem se manifestar. Dessa forma, os alimentos unem essa comunidade, criando momentos de comensalidade e de pertencimento a essas pessoas, que podem se sentir mais seguras e acolhidas entre seus similares.
Justamente por possuírem um corpo que não é considerado pela sociedade como padrão de beleza e saúde, esses participantes da comunidade de “ursos” relatam experiências de gordofobia em suas consultas com profissionais de saúde, especialmente nutricionistas. Os relatos se voltam à experiência de imposição de dietas padrões, que não se encaixam na vida social desses “ursos” e que normalmente possuem como objetivo único o emagrecimento. Percebemos a problemática de tal atuação profissional quando vemos que possuir um físico específico para essa comunidade não é só uma necessidade para cada indivíduo, mas também para o olhar dos outros, para aqueles que admiram, validam e desejam tal conformação corporal.
Portanto, é necessário que a atuação do profissional nutricionista tenha um olhar voltado às questões culturais e sociais que envolvem a alimentação de seus pacientes, considerando a relação entre saúde, sexualidade, gênero e nutrição. Dessa forma, os indivíduos podem se sentir confortáveis e felizes com sua alimentação, sua relação com o corpo e sua representação dentro da sociedade e dos grupos específicos nos quais faz parte.
Texto escrito por Marhya Júlia Silva Leite e Tamiris Isabeli da Silva - Diretoras de Comunicação e Marketing (Assessoras de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula do professor Ramiro Andres Fernandez Unsain.




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