Condicionantes Socioculturais da Alimentação
- LANCA - USP
- 15 de mai. de 2022
- 4 min de leitura
Muito se discute sobre a relação existente entre a alimentação e a cultura de uma população, sendo necessário a análise da sociedade desde os séculos passados, o que pode ser feito com o auxílio das ciências sociais, como a arqueologia, antropologia e sociologia.
Para começar, através das ciências, são aceitos alguns conceitos importantes, como o de espécie: um agrupamento de populações naturais que podem reproduzir entre si e encontram-se isoladas reprodutivamente, um produto da seleção natural, em que sobrevivem os mais resistentes, ou seja, os com maior número de descendência. Assim, foi definido que os humanos são a espécie sapiens-sapiens.
Algo considerado como especificidade humana é seu processo de adaptação contínua, dada a importância de seu comportamento sexual contínuo, visto que, em outras espécies, as fêmeas apenas são receptivas durante o estro. Assim, a sexualidade - hétero ou homossexual - ativa aumenta a colaboração intersexual na espécie humana, além de gerar maior variabilidade genética, devido ao maior número de descendentes.
Outros conceitos importantes são o de genótipo, a combinação entre os genes do pai e da mãe na pessoa, e o fenótipo, que são as características visíveis de um organismo, baseado no seu genótipo, fatores ambientais e na relação entre eles. Dessa forma, é possível afirmar que a variabilidade adaptativa dos humanos é expressada por sua base biológica (genótipo), mas também pelos fatores culturais, relações sociais e ambiente em que está inserido.
Assim, focando na cultura, essa é entendida como uma estratégia adaptativa, socialmente e historicamente construída, com todos os indivíduos de uma sociedade sendo responsáveis por ela. Nesse processo, os sujeitos podem estabelecer entre si parâmetros de proximidade e distanciamento, de subalternidade e superioridade, é a partir disso que surgem os conceitos de minoria, um grupo que em algum setor das relações sociais se encontra em situação de desvantagem ou dependência em relação a outro grupo maioritário, o que não se refere a quantidade numérica.
Voltando para o olhar da alimentação, a arqueologia pode analisar a história de uma sociedade a partir dos seus utensílios e tipo de energia utilizada nos processos culinários, modo de consumo e seleção dos alimentos e refeições. Já a antropologia, estabelece a visão que a tal sociedade possuía sobre suas possibilidades alimentares e seus recursos técnicos.
Além disso, as sociedades apresentam eficiências alimentares específicas, ou seja, como seus alimentos transmitem mensagens, se são utilizados para comunicação com deuses e entidades, como forma de pertencimento a um grupo, de mostrar seu poder econômico ou até pelo compartilhamento de uma refeição. Desse modo, entender a cultura de um povo é essencial para verificar seu comportamento perante a comida, relacionando seu contexto político, econômico e simbólico, para descobrir quais influências, premissas, mandados e concepções agem sobre determinado indivíduo.
Ademais, se formam algumas questões inseridas na problemática alimentar relacionada às ciências sociais, como a inserção da sociedade no sistema internacional do capital, a estrutura agropecuária do país, sua distribuição de renda e força de trabalho e a mais importante, as diferentes identidades coletivas e individuais que interagem nessa nação, com isso, é claro que estudar a alimentação requer um olhar multidisciplinar, visto a complexidade desse fenômeno.
Por exemplo, existe no Brasil uma comunidade homoerótica de “ursos”, que são homens homossexuais com algumas especificidades em comum, como barriga protuberante, pelos abundantes, atitudes e trejeitos “masculinos”, as quais os distinguem de outros coletivos e sexualidades dissidentes. Nesse grupo, pode ser observado uma série de relações, incluindo a dimensão alimentar, de sexualidade, de gênero e até de saúde, visto que é possível unir as suas práticas alimentares ao comportamento, sentimento e socialização do coletivo. Assim, os ursos se identificam por terem um desejo erótico orientado a pessoas do mesmo sexo, que rejeitam a homogeneidade e hegemonia estética atual e que se apropriam de um corpo subversivo, pois produzem um erotismo baseado no seu volume adiposo e abundância de pelos.
Atualmente, a vida dos “ursos” se dá através de encontros em festas temáticas realizadas em discotecas e churrascos em casas com piscina, esses encontros envolvem o consumo de diversos tipos de alimentos, como pizza, fast food, feijoada e carnes. Através dessas informações, pode-se analisar as relações que a alimentação e saúde se combinam com a sexualidade e gênero dos participantes e estudar a lógica de construção dos corpos e mentes deles. Após um estudo feito com o coletivo, foi visto que a reunião à mesa é um evento que reforça a identidade grupal e a relação interna entre os membros, sendo que eles consideram a carne e a cerveja como os alimentos mais valorizados.
Por fim, a relação entre alimentação, sexualidade e gênero é manifestada de diferentes modos em uma sociedade, com os próprios indivíduos refletindo a forma que essa relação se molda e dialoga com sua cultura e processos alimentares.
Texto escrito por Matheus Lisboa e Renata Torres - Diretores de Comunicação e Marketing (Assessores de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula ministrada por Ramiro Fernandez.




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