Corpo gordo e estigma
- Marhya Júlia Silva Leite; Tamiris Isabeli da Silva

- 27 de jul. de 2021
- 9 min de leitura

Em vez de obesidade, para esta aula será utilizada a denominação de corpo gordo, uma vez que nem todos que possuem um corpo maior, estão doentes, e automaticamente com o uso das palavras sobrepeso e obesidade, que são palavras médicas, o que se subentende é que estão neste lugar de doença.
Quando pensamos nesses corpos hoje, é fácil pensar que estes não tem uma reputação muito boa, pois geralmente já vem associado a características associadas. Mas, como essa construção foi se formando ao longo do tempo?
Nos anos de 1900, após longos períodos de escassez e fome, um corpo mais robusto era um indicador de saúde e uma característica desejada, além de ser símbolo da fartura tão procurada naquele tempo, já que os corpos magros representavam maiores chances de adoecimento e indicavam pobreza.
Nas décadas subsequentes houveram períodos de prosperidade e plenitude, junto à maior abundância e consumo de alimentos, ao mesmo tempo que também aumentava a preocupação acerca do peso corporal da população. Neste período médicos, pesquisadores e especialistas em saúde pública, e, a mídia, começaram a se debruçar sobre a associação entre o corpo gordo, algumas doenças e piores parâmetros de saúde, como recomendações para moderar a alimentação, construção do índice que iria instituir pontos de corte de normalidade baseado no peso e altura das pessoas - IMC, e a associação do corpo magro à saúde e ideal.
O corpo magro então passou a ser um novo sinal social de alto-controle e distinção social, e o corpo gordo passou a ser o oposto, assim, associado ao descontrole, doenças e menor ascensão social. Ou seja, houve uma inversão do que acontecia anteriormente.
Quando vemos o papel da mídia e de medicamentos, achamos relatos de discursos da época que ridicularizam o corpo gordo em comparação ao magro, como frases em anúncios, como de um vinho que diz ao lado de uma imagem de duas mulheres, uma com corpo maior e outra com corpo mais magro: “Contraste que ridiculariza: conserve seu romance reduzindo essa gordurinha que tanto à enfeia (...)”, ou em outras propagandas como: “Porque razão engorda? Quando hoje é tão fácil à mulher conservar a elegância e a graça do corpo (...)”, “Mocidade, alegria, estética: todos os gordos devem usar sem prejudicar o organismo para emagrecer”, “Engordar é envelhecer: Urodonal, evita a obesidade” ou “Slim-Mint, o chicle que emagrece”. Com isso, já vemos todas essas práticas e atitudes em relação à diferentes características corporais sofrem e sofreram mudanças, assim, vemos toda essa colocação girando em torno de peso, e também já relacionando corpos magros à mulher.
Desta forma, o corpo gordo não é uma construção estável, mas representa vários símbolos multivalentes e flexíveis, que terão uma diversidade de significados e práticas, e vão ilustrar como aquela determinada cultura molda as vidas públicas e privadas das pessoas. As interpretações em respeito do peso corporal variam amplamente mesmo dentro de uma cultura e entre culturas, então hoje, está muito implícito a associação do corpo magro à saúde, beleza, inteligência, juventude, disciplina, e o corpo gordo aos infortúnios ditados populares de que “se emagrecesse ficaria tão mais bonita”, “teria mais chance de se relacionar com alguém”, “não deve se controlar com esse peso que ela tem”, “não está sendo responsável com a saúde dela” ou que “deve ser preguiçosa”, sendo que todos esses descréditos foram se associando à esse corpo.
O estigma, não relacionado ao peso, é um atributo que desqualifica determinada pessoa de total aceitação social, sendo um processo resultante de interações sociais, na qual o “desviante” é visto como aquele que se distancia dos outros que são, supostamente, normais. A característica estigmatizadora legítima diversas discriminações sociais e exclusões, sendo a deficiência física a principal representante destas.
O estigma relacionado ao peso corporal está relacionado à “discriminação moral” ou a “morte social” que as pessoas gordas vivenciam por causa das mensagens sociais negativas relacionadas a este corpo, como preguiça, descontrole, falta de força de vontade, de motivação, de disciplina, de competência, de inteligência e de compromisso. Assim, neste contexto, não estamos falando de saúde, pois falar que alguém é irresponsável, preguiçoso, descontrolado, é um julgamento moral com descréditos que foram sendo associados a esse corpo, moldando o estigma social.
Para o entendimento de como o estigma é visto socialmente, uma pesquisa alemã, de Hilbert, Rief e Brachler (2008), buscou determinar atitudes estigmatizadoras em relação à obesidade na população e seus determinantes psicológicos e sociodemográficos. O estudo foi conduzido com uma amostra de 431 homens e 469 mulheres de IMC, medicamente, considerados normais, para avaliar com elas percebiam as pessoas gordas, utilizando uma subescala que avaliava crenças de se as pessoas gordas eram responsáveis pelo seu corpo, ou seja, falta de força de vontade, preguiça e que “soubessem o quão feias são, perderiam peso”, etc. Como resultado, 23,5% desses participantes apresentaram atitudes estigmatizadoras para com as pessoas gordas, atribuindo esta condição ao comportamento individual, a um nível educacional mais baixo e à idade mais avançada.
Em outro estudo, agora dos Estados Unidos da América, também investigaram as experiências de discriminação corporal em 2.290 adultos, sendo homens e mulheres com uma amplitude de IMCs, depeso normal até obesidade grau III. Neste caso, 10,3% das mulheres reportaram sofrer estigma por causa do peso corporal, e os homens, 4,9%. Na amostra com IMC entre 25 e 29,9 kg/m3, 3,5% dos homens e 8,6% das mulheres sofreram estigma. Naqueles com IMC entre 30 e 35 kg/m3 a percentagem de pessoas que sofreram o estigma entre os homens foi de 6,1%, e das mulheres de 20,6%. Por fim, nos casos de IMC maior que 35 kg/m3, 28,1% dos homens e 45,4% das mulheres sofreram estigma. Com isso, vemos que essa percepção se diferencia baseada na distinção do gênero e se agrava também em relação ao aumento do IMC, pois se houvessem destrinchado maiores graus de IMC, essas projeções aumentariam. Além disso, as autoras (Andreyeva, Puhl e Brownell, 2008) apontaram que o estigma do peso foi o terceiro tipo de descriminação mais comum entre as mulheres e a quarta forma mais prevalente relatada por todos os adultos.
Este estigma em relação ao peso ocorre em programas de televisão, redes e mídias sociais, mensagens de saúde pública com discursos estigmatizadores, no trabalho, nas relações interpessoais com familiares diárias, como ser julgado por aparência e alimentação de maneira desconfortável e discriminatória pelas pessoas ao seu redor, sendo isto quase tão frequente quanto a discriminação racial e, em alguns casos, até mais frequente do que a discriminação por idade ou gênero, apesar de não serem o mesmo, pois tomam proporções diferentes e podem ocasionar até mesmo mortes, mas estes dados servem para visualizar a dimensão que este estigma está tomando.
Em outro estudo, realizado por Schwartz et al (2006), investigou as influências de diferentes tamanhos corporais no estigma relacionado ao peso corporal em 4.283 pessoas, que apresentavam amplitude de IMCs de 18,5 a 40 kg/m3. Neste, em todas as categorias de IMC, houve atitudes negativas explícitas sobre o corpo gordo, em uma relação inversa entre o peso corporal e o nível dessas atitudes. Isto é, participantes magros associavam espontaneamente atributos negativos a pessoas gordas, referindo-se às mesmas como pessoas “ruins”, “preguiçosas” e “menos motivadas”, dizendo inclusive que preferiam se relacionar com pessoas magras a gordas, ambos os participantes, tanto magros, quanto gordos, associaram o corpo gordo com um quadro ansioso.
Ainda neste estudo, uma porcentagem substancial dos participantes, independentemente do tamanho corporal, porém de forma mais abundante em pessoas com corpo magro, indicaram que fariam escolhas adversas para evitar ter um corpo gordo, medicamente classificado como obeso. Recorrendo à hipóteses em que 46% preferiam perder um ano de vida; 30% se divorciar; 25% não poder ter filhos; 15% ficar gravemente deprimidos; 14% ser alcoólatras, 5% perder um membro; e 4% ser cegos, a ter um corpo gordo.
Todos esses estudos mostram a centralidade do peso corporal na sociedade contemporânea, muitas vezes excluindo pessoas que estão fora do padrão estabelecido, ou seja, o corpo magro, forte e definido. Há também estudos que estimam que a prevalência de estigmas de peso corporal aumentou 60%, o que é comparável à taxa de discriminação racial nos Estados Unidos da América, favorecendo sérios impactos sociais resultantes das discriminações e do estigma relacionado ao peso que muitas pessoas gordas enfrentam, sendo ao menos responsável pelos problemas de saúde que são imediatamente atribuídos à obesidade, o que leva ao questionamento de, se não estivéssemos em um cenário estigmatizador, será que não estariam melhor de saúde devido à toda carga emocional que recebem por ter um corpo “fora do normal”?
As consequências do estigma se dão de forma que um estudo quantitativo de Mustillo, Budd e Hendrix (2013), que investigou como jovens adultos que foram gordos durante a infância e adolescência, e receberam rótulos estigmatizadores de familiares e amigos, eram afetados na sua transição para a vida adulta, mostrou que meninas que eram obesas aos 9 e 10 anos, aumentaram a chance de continuarem com o corpo gordo e terem piora na saúde mental, de forma que o mesmo padrão se manteve nas avaliações do início e meio da adolescência. Tais estigmatizações no final da infância, início e meio da adolescência fizeram com que essas participantes apresentassem maior estresse psicológico na fase adulta, que variou de intensidade de acordo com a idade que receberam o estigma.
Outro estudo avaliou o impacto de experiências com estigma do peso na motivação para se exercitar, se alimentar bem e outros resultados psicológicos, mostrando que 97% dos 111 adultos participantes que se considerassem com sobrepeso ou obesidade, sendo 84 mulheres e 27 homens dos Estados Unidos da América, relataram experimentar alguma forma de estigma do peso pelo menos uma vez na vida, e 45% disse experimentar alguma forma de estigma pelo menos uma vez na semana. Assim, esse estudo mostrou que as pessoas que sofreram estigma, apresentaram um comer transtornado que se associou à insatisfação corporal, ao desejo por um corpo magro e sintomas bulímicos, além de se sentirem desmotivadas para se engajar em uma alimentação adequada, e apresentavam baixa autoestima, evitando se exercitar por se sentirem desconfortáveis ou envergonhados por serem julgados como alguém que tem um corpo desviante da norma, causando desgastes emocionais e chances de inflamações e doenças crônicas.
Assim, de maneira geral, o que se percebe é que o estigma do peso tem como consequências um menor acesso a educação e carreiras profissionais, remuneração mais baixa, maior chance de serem demitidos, pior cuidado de saúde - por negligência médica e desigualdade na assistência de saúde e atenção, devido à falta de paciência e empatia, maiores chances de sofrerem bullying, provocações e de serem rejeitados romanticamente.
O estudo de Ulian et al. (2020) investigou a percepção de mulheres gordas sobre seu próprio corpo e suas experiências com o estigma do peso e como essas situações afetavam seu bem-estar, em que as participantes relataram utilizar mecanismos para diminuir a magnitude de seus corpos estigmatizados, como tentando perder peso através de inúmeras dietas e rotinas intensas de atividades físicas, além de modificarem suas escolhas alimentares atuais, com restrições de certos alimentos, como os doces. Além disso, relataram que “ser gorda teve consequências físicas e psicológicas“, de forma que seus corpos maiores influenciaram em suas autoavaliações, fazendo com que se sentissem desvalorizadas, incapazes, incompletas e sem possibilidade de se sentirem amadas, por não acharem que o corpo gordo seja bonito nem digno de ser valorizado e desejado, assim, querendo ocupar menos espaço no mundo por achar que atrapalha a sociedade.
Com isso exposto, o que podemos fazer para ajudar a combater esse estigma é dar suporte para quem sofre estigma, a exemplo da adoção de atendimentos dignos, respeitosos, paciências, sem viés no emagrecimento a todo custo, ou seja, adotando um atendimento nutricional sem dieta, atividade física voltada para resgatar o prazer para movimentar o próprio corpo, assim como debater temas como corpo e estigma, educando a população a respeito destes assuntos, semelhante ao sistema de intervenções adotadas por Scagliusi et al., 2021, que buscaram acolher sem atitudes estigmatizadoras, lutando contra a ideia retrógrada e infundada de que o corpo gordo não é saudável e no alcance de avaliações e percepções melhores do próprio corpo, sem a necessidade de perder peso para “merecer” aceitação, adotando medidas de cuidado e pertencimento consigo, ao mesmo tempo melhorando a qualidade de vida. Além disso, como formas de alcançar tal objetivo, há a necessidade de existirem locais com mobiliário, decorações e informações adequadas, e a de implementação de leis federais que proíbam o estigma do peso, assim como há em locais dos Estados Unidos da América, junto à efetivação de maiores opções de reparação em tribunal, disponíveis às vítimas de estigma relacionado ao peso.
Portanto, o estigma relacionado ao corpo gordo pode promover ainda mais ganho de peso e reforçar a manutenção da obesidade (Brewis e Wutich, 2014). Sendo necessário discutir sobre o estigma e lutar contra sua existência, pois este apenas prejudica a sociedade como um todo, seja de maneira direta, ou indireta, de forma que cada vez mais mensagens vem reforçando que essa condição é resultante de decisões pessoais, sendo que há diversos fatores, que não serão apagados por simplesmente adotar uma alimentação intraoral, que retira a possibilidade da comensalidade das pessoas, ou pela forma excessiva e compensatória de se exercitar, como forma de forçar um emagrecimento não saudável, e, muitas vezes, desnecessários, que apenas compactuam com o preconceito enraizado.
Texto escrito por Marhya Júlia Silva Leite e Tamiris Isabeli da Silva - Diretoras de Comunicação e Marketing (Assessoras de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula da professora Mariana Dimitrov.




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