top of page

Covid-19 e seus diferentes impactos

  • Foto do escritor: Marhya Júlia Silva Leite; Matheus Lisboa; Renata Torres; Tamiris Isabeli da Silva
    Marhya Júlia Silva Leite; Matheus Lisboa; Renata Torres; Tamiris Isabeli da Silva
  • 30 de nov. de 2021
  • 8 min de leitura

Bloco 1

A crise da covid 19 pode ser interpretada com vários significados, como entender qual a emergência, o contexto no qual ela surge, as possíveis interfaces e contextos sociais, o que permite então compreendê-la não só com o presente, mas também ter a noção das próximas que podem chegar. Dessa forma, a sustentabilidade tem que ser entendida como um possível artifício para amenizar os efeitos dessa e de outras crises que estão em curso, sobretudo se pensarmos em maneiras de evitá-las.

A pandemia, que se iniciou lá no final de 2019, é considerada a sexta emergência de saúde pública de interesse internacional declarada pela OMS. Para isso, o órgão tem como justificativa o entendimento de um evento extraordinário, com enormes riscos para saúde pública, com facilidade de se propagar internacionalmente e de forma rápida em um mundo globalizado e com meios de transporte e deslocamento muito mais facilitados. Todo esse cenário requer uma resposta coordenada por parte do mundo inteiro.

No Brasil, o número de casos de covid-19 foi muito subnotificado, além de termos uma prevalência menor de instrumentos de testes em comparação a outros países. Mesmo assim, atingimos a marca de quase 610 mil mortes, sendo que no mundo inteiro o número de mortes está chegando na casa de 5 milhões. Autores, como o francês Edgar Morin, destacam que a pandemia e a mundialização, o efeito global de alcance dela, transforma as relações sociais advindas do contexto em "interdependência sem solidariedade”, ou seja, há um complexo técnico-científico mundial formado que não abarca, necessariamente, a compreensão entre os povos.

João Nunes aponta que o grande desafio dessa crise também seria pensarmos, como comunidade global, que os riscos planetários, na verdade, tem grandes repercussões locais. Nesse sentido, o mundo contemporâneo tem como principais motores de mudanças as forças humanas, acelerando tudo que está em curso.

É preciso reforçar uma agenda de segurança sanitária que seja sustentável e que reconheça a interconexão entre seres humanos e outras espécies. Urgentemente, a sociedade precisaria reiniciar seu padrão de consumo e comportamento. O processo então passaria por temas como inclusão, justiça, consciência das diferenças e reconsideração do modelo econômico.

O professor da Unicamp, Luis Marques, entende que a pandemia se soma a diversas crises sistêmicas que estão em curso, justamente no momento que não é mais possível postergar decisões que afetarão muito em breve o planeta, particularmente as crises de perda de biodiversidade e crises climáticas. Portanto, tratam-se de crises sistêmicas que têm intensa relação com a forma que os seres humanos vivem num mundo cada vez mais urbanizado e dependente da exploração predatória dos recursos naturais. Assim, sobreviver a essas crises também passa por redefinir nossa posição como espécie no âmbito da biosfera.

Bruno Latour, pesquisador francês, destacou que a crise sanitária prepararia as pessoas para mudanças climáticas que já estão em curso. Nesse sentido, aquela mobilização geral que tivemos no começo da pandemia não provaria em nada nossa capacidade de lidar com as mudanças que estão por vir.

Outras correntes analisam que só existe uma espécie culpada pela pandemia, o próprio ser humano. Sendo tudo consequência direta das nossas atividades, sistemas econômicos e financeiros, em que vale o crescimento econômico a qualquer custo. Todos os abusos em questão ambiental criam a tempestade perfeita para eclosão de doenças que estavam ali acomodadas em seus habitats naturais, que de alguma forma chegam a nós e encontram condições perfeitas para causar problemas enormes.

Portanto, o que podemos aprender? Existem diferentes discursos e abordagens ambientais: uns focam mais na importância de garantia de sobrevivência de seres humanos e não humanos, tirando o enfoque do papel do ser humano na biosfera, outros discursos postulam como vamos resolver os problemas ambientais, que vão levar em conta consciência de políticas verde e outros que sustentam que é possível aliar crescimento econômico e proteção ambiental.

É fato que já ultrapassamos os limites de biodiversidade e do ciclo natural do nitrogênio, já estamos quase ultrapassando os limites das mudanças climáticas, esta última ocorrendo de forma mais acelerada do que imaginávamos. A sustentabilidade deve então ser pensada em diferentes dimensões. Uma social, que pensa na distribuição de bens e de renda, mas também de direito e justiça. A dimensão ecológica diz respeito à solidariedade com o planeta, suas riquezas e biodiversidade. Além disso, a dimensão econômica que precisa rever modelos de produção e consumo. Atenção também à perspectiva espacial, pensando nas relações rural e urbano, local e global. Por fim, é necessário pensar em questões políticas, institucionais e culturais em que surjam questionamentos da maneira que lidamos com o mundo globalizado.


Bloco 2

Um dos sintomas que a COVID-19 causou em quem não teve consequências graves foi a perda do olfato. Apesar de parecer relativamente simples, esse sentido tem total importância para as pessoas. Perder o olfato parece uma bobagem, mas quando aliamos ao paladar, percebemos que já estamos incluindo dois dos principais sentidos.

O olfato tem um papel muito importante para o desenvolvimento do ser humano, como a questão de segurança, uma vez que detectamos cheiro de fumaça, alimentos estragados, gás de cozinha ou até mesmo pode se tratar de uma questão de higiene pessoal, garantindo o bem ou mau estar da pessoa. Isso é tão comum para as pessoas, que parece trivial.

Todavia, o olfato vai bem além do cheiro, ao contrário dos outros sentidos ele tem estímulo em outras regiões do cérebro, não passando pela região do tálamo, região mais específica e mais consciente. O olfato, na verdade, estimula outras regiões como o hipocampo, esta tem relação com a memória e a região do sistema límbico, que é a região responsável pelas emoções. Fica claro por que temos a memória olfativa tão acentuada e lembramos de cheiros e perfumes que nos causam prazer, até mesmo despertando lembranças. Então, de fato, perder o olfato também insere uma perda emocional.

Além disso, é muito comum que as pessoas que perdem o olfato tenham problemas com o paladar, sendo que alguns pacientes percebem, exclusivamente, essa perda. Quando comemos um alimento conseguimos ter duas experiências, a primeira relacionada com o gosto, relacionado com a língua e papilas, detectando se o alimento é doce, amargo, azedo. Porém, o que atribui sabor aos alimentos é o nosso nariz, então se comêssemos com o nariz tapado, por exemplo, não teríamos a percepção do sabor.

Em relação ao olfato, nós temos quatro tipos de alterações: Anosmia (perda completa, Hiposmia (redução), Parosmia (distorção, cheiros fétidos), Fantosmia (cheiros que não existem no ambiente). Já com relação ao paladar, nós temos a Ageusia (perda completa), Hipogeusia (redução do paladar); Disgeusia (distorção).

A alteração de olfato e paladar chega a mais de 80% dos infectados com COVID. A grande maioria consegue se recuperar no primeiro mês, mas 10% ainda lutam com esse sintoma por 6 meses. Alguns estudos já dimensionam o impacto na perda de qualidade de vida dessas alterações, indicando redução no prazer da alimentação, preocupação com os odores corporais, depressão e insegurança com cheiros que podem causar algum risco à saúde ou fisicamente. Entre os acometidos pelo vírus, 76% remetem uma perda na qualidade de vida; 66% tem uma piora no apetite; 84% reduziram a capacidade de saborear o alimento; 24% tiveram dificuldade no preparo dos alimentos; 14% tinham dificuldade para comer, sendo ainda que somente 20% busca apoio familiar, pois também é muito comum uma falta de compreensão das pessoas próximas.

A falta de olfato pode alterar diversos aspectos da vida como o consumo alimentar: há uma compensação em alguns condimentos como sal, pimenta e açúcar. As pessoas tendem a se sentirem inseguras com odor corporal e podem mascarar isso com perfumes. Muitas pessoas, em reação ao problema, podem até mesmo preferir um isolamento social, com sintomas de ansiedade e depressão aflorados.

Entre as estratégias para lidar com esses tipos de problemas, os especialistas apontam que, geralmente, os piores alimentos são as frituras, assados, alho, cebola, café e chocolate, em resumo compostos com enxofre e nitrogênio que podem causar maiores desconfortos aos indivíduos.

Outra recomendação é sempre preferir alimentos em temperatura ambiente ou frios. Em geral, arroz, massas e pães são bem tolerados. Também, é recomendado testar novas texturas e sabores, alimentos crocantes e temperos naturais, assim testando diferentes regiões do cérebro e descobrindo o que foi ou não afetado.


Bloco 3

Outro destaque dentre as polêmicas da pandemia foi a volta do Brasil ao mapa da fome, não sendo ela a causadora da fome, mas sim uma potencializadora e aceleradora de seus efeitos, graças às políticas públicas adotadas pelo governo atual.

Primeiramente, é necessário estabelecer alguns conceitos:

  • Insegurança alimentar moderada: um estado de incerteza sobre a capacidade de obter alimentos que compromete a qualidade e quantidade dos alimentos consumidos;

  • Insegurança alimentar grave: literalmente ficar sem comida e sem comer por um dia ou mais;

  • Fome: uma sensação desconfortável ou dolorosa causada por energia insuficiente da alimentação, medida pela prevalência da subalimentação.

  • Má nutrição: condição associada a deficiências, excessos ou desequilíbrios no consumo de nutrientes, sejam pessoas desnutridas ou obesas.

  • Segurança alimentar: quando todas as pessoas têm acesso físico e econômico a uma quantidade suficiente de alimentos nutritivos a todo momento.

  • Soberania alimentar: direito dos povos a alimentos saudáveis e culturalmente adequados.

Quanto às políticas de alimentação e nutrição no Brasil, pode-se dizer que desde a República Velha a fome é negligenciada e tratada como “culpa de quem a tem”, ao invés de lidar com ela como um problema estrutural do país.

Apesar de todos os obstáculos do governo, diversos programas de combate a fome são criados a partir de 1960, passando por fases melhores e piores de acordo com a fase presidencial, até que, em 2014, o Brasil sai do mapa da fome e é reconhecido internacionalmente como protagonista no combate à fome e à miséria.

Porém, já em 2016, a ótica neoliberal do presidente entra em colisão com o discurso de soberania alimentar antes empregado e a situação só piora após a eleição do atual presidente Bolsonaro, com um desmonte das políticas de alimentação e nutrição em curso.

Assim, a pandemia chegando em 2020 só serviu para acelerar os resultados que o governo buscava ter, além da adoção de um auxílio emergencial mínimo e cada vez menor perto do custo da alimentação atual. Com tudo isso, chegamos a situação vergonhosa da OAB ter que pedir ao Supremo para obrigar o governo a adotar medidas de combate à fome.

O que também se observa é a semelhança entre as pessoas que passam fome atualmente no Brasil, sendo 75% negros e 71,42% de todos que vivem em favelas, com isso sabemos exatamente onde se encontra a fome no país: entre negros e moradores das favelas.

Uma dos resultados das ações governamentais que gera a fome é o custo da cesta básica relacionando com o valor do salário mínimo dos trabalhadores, considerando que uma cesta básica custa R$673,45 e o salário mínimo seja de R$1100,00, quando, na verdade, o ideal seria de R$5657,66. E o questionamento que fica é o porquê desses alimentos estarem tão caros num país que é essencialmente exportador de commodities, a resposta se explica na alta demanda dos produtos, mas uma oferta insuficiente, pois os produtores brasileiros preferem exportar para lucrar mais, ao invés de venderem seus alimentos para a população brasileira.

Por fim, o que pode ser feito é fortalecer a resiliência dos mais vulneráveis, por meio de programas de campo ou apoio em dinheiro, intervir nas cadeias de abastecimento para reduzir o custo de alimentos nutritivos, combater a pobreza e as desigualdades estruturais e fortalecer os ambientes alimentares, mudando o comportamento do consumidor no sentido de diminuir ultraprocessados e dar preferência à produtos locais e orgânicos.



Texto escrito por Marhya Júlia Silva Leite, Matheus Lisboa, Renata Torres e Tamiris Isabeli da Silva - Diretores de Comunicação e Marketing (Assessores de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula de Fe timerman, Priscilla Formigari, Gabriela di Giulio e Tereza Campello.


Comentários


Post: Blog2_Post

Assine nossa newsletter e esteja sempre LANCAtualizade sobre novas publicações e eventos

Obrigade por se ligar a nós!

  • Facebook
  • Instagram
  • LinkedIn

©2021 por Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares (LANCA), FSP - USP.

bottom of page