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Desertos alimentares

  • Foto do escritor: LANCA - USP
    LANCA - USP
  • 29 de jun. de 2022
  • 3 min de leitura

Diversos órgãos de pesquisa já definiram conceitos para o termo “desertos alimentares”, sendo a definição original como um local onde a população tem acesso dificultoso a alimentos saudáveis, a maioria não possui meio de locomoção próprio e vivem abaixo da linha de pobreza do país. Outro conceito muito comum é o de pântanos alimentares definidos por regiões com excesso de oferta de alimentos ultra processados, como bolachas, salgadinhos e bebidas açucaradas em relação à mínima oferta de alimentos in natura ou minimamente processados.

Partindo dessas definições, pode-se estabelecer o sistema alimentar presente no Brasil atual, caracterizado por extensa desigualdade social, excesso de consumo de produtos ultraprocessados, dificuldade de acesso a produtos in natura, tudo contribuindo para aumento da prevalência das doenças crônicas não transmissíveis, obesidade por exemplo, ao mesmo tempo que da incidência de desnutrição.

Dessa forma, foi realizado um estudo liderado pela prof. Paula Martins, iniciado em 2007, feito como projeto piloto de teste de metodologia em intervenção no ambiente alimentar de pacientes em áreas de desertos alimentares no município de Santos, São Paulo. Tal trabalho tinha o objetivo de relacionar fatores ambientais relacionados ao estado nutricional dos indivíduos, a partir da inquietação do grupo ligada a culpabilização dos pacientes pelo seu estado corporal quando em consultas nutricionais e a banalização do seu tratamento, geralmente resumido a “coma menos, restrinja alimentos e mexa-se mais”.

Sabe-se que a situação do corpo de cada pessoa tem sim haver com suas escolhas alimentares individuais, mas não só isso, depende muito da sua condição socioeconômica, do acesso físico a ultraprocessados ou in natura, poder aquisitivo, disponibilidade de alimentos na região que habita, cultura alimentar, entre outros fatores que não podem ser simplesmente desconsiderados durante um tratamento nutricional. Desse modo, já é claro o quão ineficaz é a abordagem dos nutricionistas a nível individual, responsabilizando totalmente os pacientes pelo seu IMC.

Voltando ao estudo, seu foco foi o público materno-infantil, prioritário na saúde pública, medindo características ambientais de exposição nas áreas ao redor de domicílios de 531 mães com crianças de até 10 anos, que também foram entrevistadas. Além das famílias, foram avaliados todos os comércios, mercados, padarias, pontos de venda de alimentos prontos para consumo, como restaurantes buffet e fast-food, fixos e móveis, quanto a disponibilidade e variabilidade de alimentos saudáveis, já nos questionários de base domiciliar foram recolhidas informações de recordatórios alimentares de 24h, avaliações antropométricas das crianças e respectivas mães, de questionários socioeconômicos, de saúde, de aquisição de alimentos e de características de percepção do ambiente alimentar.

Portanto, após o levantamento de dados e análise deles, os resultados demonstraram que a maior parte dos produtos alimentícios disponíveis eram ultraprocessados em comparação aos alimentos in natura, em todos os comércios avaliados, também foram determinadas a qualidade da alimentação de cada área através da escala de hábitos alimentares, chegando a conclusão de que quanto menor o nível socioeconômico da população local, pior a classificação na escala, mostrando que a desigualdade social afeta inclusive o tipo e variedade de alimentos e comércios que a comunidade tem acesso. Assim, mesmo que o indivíduo da região mais pobre decida se alimentar melhor e consumir produtos saudáveis, isso é impossibilitado ou altamente dificultado pelos efeitos do sistema alimentar brasileiro, o que, por fim, caracteriza e favorece a presença de inúmeros desertos alimentares nos municípios do Brasil.


Texto escrito por Renata Torres - Diretora de Comunicação e Marketing (Assessores de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula ministrada pela prof. Paula Martins.


 
 
 

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