Dietas Restritivas, Consequências e Ineficácia: a influência das redes sociais
- LANCA - USP
- 31 de ago. de 2022
- 3 min de leitura
Na cultura ocidental, o padrão de corpo magro é entendido como o ideal a ser almejado por todos, mais especificamente, por todas, visto que as mulheres são a parcela mais pressionada a alcançá-lo. Porém, nem sempre foi assim, na Antiguidade Clássica, a sociedade grega iniciou a associar a forma corporal a fatores estéticos, mas não necessariamente a magreza, por exemplo, no feudalismo, o padrão tido como belo era o corpo gordo, indicando riqueza e fartura.
Além disso, acredita-se que a relação entre estado corporal e alimentação foi introduzida na Grécia e Roma Antiga, a partir dos filósofos Hipócrates e Galeno, os quais introduziram aspectos de saúde e doença ao quadro, estudando as chances de morte súbita de acordo com o excesso de gordura dos indivíduos. Também, já na Idade Média, o acúmulo de gordura passa a ser evitado e mal visto por poder ser vinculado ao pecado da gula e avareza. Assim, o ódio à gordura foi sendo construído no Ocidente, enquanto o corpo passa gradativamente a ser um marcador de classe social e hierarquização da sociedade, tendo como dois grandes marcos, no século XIX, a saída das mulheres brancas ao mercado de trabalho e a valorização geral da magreza como sinal de riqueza e superioridade.
Nesse sentido, a indústria da moda e as mídias veem esse o meio ideal para controlar as mulheres, ditando o que é belo, certo e aceito para seus corpos, a partir da comparação com modelos femininas, de cintura fina e formas perfeitas, sem nenhuma característica que lhes traria defeitos, e como meio para atingir esse estereótipo, trazem a manipulação da alimentação e restrições alimentares, com a cultura da dieta.
Muito se caminhou até que chegasse o ponto de colocar esse assunto como pauta nas discussões de saúde pública, visto que a pressão sobre os corpos se tornou tão extrema que as dietas viraram fatores de risco à saúde de muitas que a aderem. Principalmente, quando tais comportamentos alimentares são moldados pela insatisfação com o próprio corpo, com retirada compulsória de calorias ou de um grupo alimentar inteiro, geralmente carboidratos. A partir disso, diversas são as consequências individuais, como a probabilidade 18 vezes maior de desenvolver algum tipo de transtorno alimentar e psicológico, tal como a bulimia, depressão e ansiedade, além dos distúrbios de imagem corporal.
Ademais, toda essa pressão sobre o estereótipo magro ainda causa consequências na sociedade como um todo, pois precisa investir nos tratamentos dos transtornos alimentares e mentais desenvolvidos em suas vítimas, precisa lidar com mortes, cada vez mais frequentes, pelo uso inadequado de chás, fármacos, jejuns prolongados, entre outros.
Além dessas questões, a busca pela padronização de corpos também leva a impactos em todo o sistema alimentar de uma nação, através da padronização alimentar, como pelo consumo inesperado e exacerbado de “alimentos da moda”, que ganham famas momentâneas de emagrecedores, anti-envelhecimento, etc, levando ao enfraquecimento da cultura alimentar de cada país. Por exemplo, no Brasil, uma cultura alimentar é o consumo de arroz e feijão diariamente, e não o recentemente famoso combo: peito de frango grelhado com batata doce cozida. A nível nacional, desde a colonização o povo brasileiro é muito miscigenado e diverso, com relação tanto a cultura alimentar quanto a formas e características corporais, porém ainda é tentado a se encaixar em padrões e culturas europeias, com a unificação cultural que seus países, colonizadores e dominadores, sempre forçaram.
Uma ferramenta muito utilizada para essa imposição sobre os corpos e a alimentação individual são as redes sociais, que facilitam muito o acesso a imagens de outros corpos, levando à comparação irrealista, visto que fotos não representam de forma totalmente coerente com a realidade e podem ser editadas. Assim, a comparação leva a insatisfação corporal, ansiedade, furor por aprovação de si por terceiros, o que tem moldado as relações com corpos, sociedade e alimentos.
Outro ponto a ser destacado é o fato dos padrões estipulados além de exaltarem a magreza, são específicos de pessoas brancas, com cabelos lisos, rostos e cinturas finas. O que torna ainda mais difícil de seguir para as mulheres negras, cujas características naturais diferem dessas, como quadris e nariz mais largo, lábios grossos, cabelo cacheado etc. Com isso, o racismo persistente associado a pressão estética é injusto e cruel com elas, gerando um estresse psicoativo agressivo, que ataca sua autoestima a todo momento.
Portanto, essa situação vem sendo diariamente provada como prejudicial e perigosa para a sociedade em geral, mas tudo pode mudar com o cuidado em saúde, as escolhas pessoais a quem acompanhar nas mídias, selecionando pessoas que mostrem a sua realidade, com quem haja reconhecimento e identificação cultural. Pois, se depender da indústria, o padrão de corpo ideal nunca será alcançado.
Texto escrito por Renata Torres - Diretora de Comunicação e Marketing (Assessoria de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula ministrada pelas nutricionistas Glei Bueno e Pabyle Flauzino.




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