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Ditadura da beleza

  • Foto do escritor: Marhya Júlia Silva Leite; Tamiris Isabeli da Silva
    Marhya Júlia Silva Leite; Tamiris Isabeli da Silva
  • 13 de jul de 2021
  • 4 min de leitura


A ditadura da beleza é algo que assombra a todos e é perpetuada por muitos. Para cada gênero existem diversas cirurgias estéticas infundadas e baseadas apenas na busca sem fim pelo padrão ideal, o peso ideal e a forma ideal para cada parte do corpo, como nariz, boca, olhos, cílios, sobrancelhas, orelhas, testa, barriga, bunda, peito, vulva, axilas, unhas, etc.

Tais procedimentos, além de não propiciar ou alcançar o objetivo das vítimas desse regime ditatorial, impactam nas opiniões e preferências de novos pacientes, que assim como outros anteriores, são influenciados e influenciam, em um ciclo vicioso, uns aos demais à fazer de tudo para tentar adquirir a imagem perfeita, inalcançável e irreal em um ser imperfeito, desigual, único e tão variado, como é o ser humano.

Os homens são perseguidos no que diz respeito ao que é culturalmente disseminado como masculino nos “modelos” de homens vistos em novelas, cartazes, anúncios e revistas, que são apaixonados por carros, negócios e estarem cercados de mulheres padronizadas, sempre altos, musculosos, fortes, ricos, cheios de acessórios e automóveis de luxo, que se arriscam, passam horas na academia, tem acesso ao melhor que há e apresentam esses corpos ditos como ideais.

No caso das mulheres, a opressão vem de todos os lados. A mídia, a indústria estética, farmacêutica, alimentícia, amigos, familiares, companheiros, até chegar ao ponto que elas mesmas se portam dentro do autoritarismo pessoal e para com as outras ao seu redor, disseminando preconceitos, críticas destrutivas e enraizando nas irmãs o que foi passado à si mesma por esse mesmo sistema que ajuda a manter e financiar.

Os meros moldes esperados de um corpo não consideram o interior único, exclusivo e especial de cada um. Este, apenas se importa com o exterior, o visível, o comprável, o capitalizável. A pressão estética existe de modo que, enquanto há insatisfação, as indústrias lucram bilhões com a oferta de soluções para os problemas que ela mesma criou, como cirurgias de redução de medidas como a lipoaspiração, ou de preenchimento, como o implante de silicone nas mamas e nádegas, ou de modificação do formato de partes do corpo como a rinoplastia e a bichectomia.

A lista de procedimentos cresce a cada dia, e que acima de tudo retrata o viés racista, gordofóbico, eurocêntrico e branqueador da humanidade. Isto, pois no que é visto, há a busca por traços como o nariz e cintura fina, que são diretamente ligados aos padrões brancos. Essas ideias e modelos perfeitos são criados principalmente por homens brancos, que enriquecem com a geração de uma insatisfação constante.

Os padrões brancos apenas dão espaço aos negros quando o objetivo principal é a sexualização desses corpos. A pouco tempo a mulher negra era vista como um objeto de prazer, comentável, mutável, manipulável, quase alcançando o perfeito para ser aceito dentro do pedido machista e patriarcal, como ocorria no período de carnaval no Brasil, em que se dava espaço ao samba da globeleza.

A insatisfação constante movimenta esse mercado, que cada vez mais facilita a realização dos inúmeros procedimentos existentes. Essa facilidade em conjunto à ascensão das redes sociais e da profissão das influenciadoras digitais, fez com que cada vez mais jovens sejam vítimas da comparação que vem da hiperdivulgação da realização do sonho de se alcançar aquele manequim sem sentido, através das propagandas de tais procedimentos, que em diversas ocasiões geram óbitos por complicações do procedimento cirúrgico em corpos que não o necessitam, pois os donos, chefes e empresários desse ramo contam a todo instante com novas jogadas de marketing que persuadem e invadem os pensamentos das vítimas, que a cada dia mais procuram soluções vindas deles para defeitos impostos pela própria indústria da beleza.

Considerando que em um passado não tão distante, em que eram aplaudidos corpos saudáveis e capazes de cumprir com um dos “papéis” retrógrados dados ao grupo feminino, de gerar um filho e ser mãe, vemos que os padrões eram outros, e que estes são mutáveis de acordo com o que determinado socialmente.

Na época atual, vemos com mais facilidade os reflexos da mudança de hábitos de consumo de informação em comparação à geração passada, em que se percebe atualmente a aproximação desses padrões com um público jovem através de redes sociais, como o Instagram® e o mais recente Tik Tok®. Essas plataformas são um canal de diversas redes de pessoas que disseminam corpos e vidas perfeitas atrás de filtros, danças, legendas, informações e sorrisos falsos.

Toda essa divulgação acaba excluindo aqueles fora desse padrão, encorajando o bullying e discursos ofensivos, principalmente veiculados na internet, e auxiliando na invisibilidade destes corpos, colocando de lado quem não se enquadra ou não arrisca suas vidas para agradar aos consumidores da ideia de que deve haver uma busca, com um objetivo possível aos seus olhos, de um padrão social, que se aproxima do que é vendido com a pornografia, sexualização da mulher e capitalização de suas partes para que, por fim, caso sobrevivam, sejam legitimadas como membros da sociedade moderna.



Texto escrito por Marhya Júlia Silva Leite e Tamiris Isabeli da Silva - Diretoras de Comunicação e Marketing (Assessoras de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula da professora Fernanda Baeza Scagliusi.

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