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Ditadura da Beleza

  • Foto do escritor: LANCA - USP
    LANCA - USP
  • 12 de set. de 2022
  • 5 min de leitura

A ditadura da beleza é um tema mais popular que acadêmico, e sobre este assunto pode-se citar um livro muito emblemático da feminista Naomi Wolff, O Mito da Beleza, e neste âmbito cabe a discussão dos termos ditadura x beleza.

Padrão de beleza não é a mesma coisa que o mito da beleza ou a ditadura da beleza, pois os padrões de beleza sempre existiram, e continuarão a existir já que os padrões variam historicamente em cada sociedade e em cada cultura. Os padrões de beleza não são padrões impostos e determinados, variam e são construções sociais, culturais e históricas, que vão ter grandes efeitos e influências políticas e econômicas. É uma contextualização complexa a fim de pensar essa problemática.

Neste contexto e trazendo para a realidade atual, a ditadura da beleza dentro de nossa sociedade é marcada pelo racismo estrutural e pelo cis-heteropatriarcado, categoria esta que produz as maiores opressões na nossa sociedade. E este modelo opressor se impõe com mais força às mulheres, às pessoas trans, às pessoas negras, às pessoas de sexualidade dissidente e este conjunto de pessoas acabam sendo os mais vulneráveis em relação à sua imagem corporal. De uma forma mais geral, a imagem corporal está mais associada ao universo feminino, em relação às cobranças da aparência física propriamente, e em relação aos universos masculino e feminino, a imagem da mulher tem mais peso e é mais cobrada que a do homem.

O indivíduo é fruto e produtor ao mesmo tempo enquanto ator social, todos têm normas, valores, visão do belo, do feio, aceitável, inaceitável. E isto nos traz reflexão, como deve ser a impressão de beleza de uma mulher na sociedade? Jovem? E seus cabelos, não podem ser grisalhos ou devem estar sempre pintados? É impossível ser jovem para sempre pois todos envelhecem mas a sociedade cobra essa juventude e essa aparência jovial. E faz parte do mercado e da sociedade de consumo essa infinidade de possibilidades à disposição no mundo da cosmética (cremes, cirurgias, intervenções, etc), então é criada essa imposição para que a norma seja estar adequada ao padrão imposto e vigente a fim de transformar as pessoas e sua individualidade em meros consumidores desse mercado explorador.

Afinal, que características uma mulher precisa ter para ser considerada bonita no Brasil? Principalmente, a mulher é bonita se for branca. Isto traz um apagamento em relação a uma grande porcentagem da população brasileira e também nos traz o debate sobre o genocídio estético, além de também levantar o debate sobre o ideal de beleza da ‘mulata’ - objeto sexual e desejo dos homens. A percepção de sua natureza pelo universo masculino é ser lasciva e pervertida e até mesmo irresistível e traz uma objetificação do corpo da mulher negra.

O padrão de ser loiro de olhos claros também é uma referência em padrões de beleza, assim como o nariz fino. Os lábios podem ser grossos no caso de ser uma mulher branca mas não são aceitáveis em mulheres negras. A cor da pele também traz uma questão de status, porque o fato de ser bronzeada cria uma relação entre seu tempo livre, liberdade e poder. E é interessante que a subversão do conceito de marquinha de biquíni, corpo bronzeado e poder também pode ser pelo visto pelo uso da fita isolante nas periferias cariocas.

O cabelo liso também é um aspecto de beleza e a população negra sofre esse preconceito pelo viés da padronização da beleza. Outro ponto é que o meio termo da beleza diz sobre não ter rugas e nem estar no limite do exagero da plástica já que o padrão vigente também diz sobre o próprio padrão de magreza (cintura fina, seios firmes e empinados ou siliconados, bunda e coxas proporcionais).

Um exemplo referencial é a revista Playboy e seus contratos milionários com estrelas globais e mulheres famosas (que buscavam retorno financeiro ou ascensão social). Isso pode evidenciar ou caracterizar uma mudança no padrão dos seios ao longo de 20 anos, e isso se dá pelo uso exagerado do silicone. Acaba sendo uma mostra do impacto das intervenções estéticas sobre o corpo feminino, pautadas pela sociedade de consumo.

Num panorama histórico, nos anos 80 e 90, o padrão de beleza feminino era ditado pelas supermodelos e consistia em ser bonita, magra e alta. Kate Moss quebra o padrão estético vigente à época (a estética heroin chic). Inclusive o presidente dos EUA à época, Bill Clinton, fez um pronunciamento sobre este padrão estético e de como isso poderia ser danoso à saúde das pessoas. Mais adiante, já nos anos 2000, Gisele Bündchen, modelo brasileira, também muda o padrão do modelismo internacional, com a volta da modelo sexy. E já com outro conceito, o desfile Angel’s da Victoria’s Secret’s, o foco é na modelo e não na roupa, isso faz estimular o glamour, o desejo e o consumo dentro do universo feminino.

A regulação do corpo promove o desrespeito à diversidade e também é necessário dizer que a ditadura da beleza não tem em seu contraponto a ditadura da feiura. A beleza tem seu valor e também é um fascínio humano (o que se precisa em termos de diversidade é de modelos representativos de feminilidade e masculinidade).

Já quanto à estética masculina, a masculinidade hegemônica diz sobre força, músculos, ser sarado, não ser careca (mas ainda assim traz menos tabu que a calvície feminina), ser alto e possuir ausência de características femininas (por exemplo, ginecomastia). Possuir essas características heteronormativas proporciona uma relação de poder e superioridade sobre as mulheres.

Nos corpos trans e travesti também se espera (por parte de uma sociedade ainda preconceituosa), que se adote um padrão de feminilidade hegemônica, (corpo feminizado, roupas sexys) e acaba por virar uma estratégia de sobrevivência aderir ao padrão da sociedade, pois ao ser trans e não aderir ao padrão, isto pode gerar preconceitos e violência por parte do cis-heteropatriarcado. O desejo do homem cis-hetero sobre o corpo trans/travesti também cria e estimula essa violência. E exemplificando, o presidente Bolsonaro fez propaganda de turismo sexual usando o corpo das mulheres negras/“mulatas”, objetificando o corpo da mulher brasileira e levando o corpo ao status de algo consumível.

Então, a Saúde Coletiva pode começar a pensar em graus maiores de liberdade pelo lado da justiça social e da existência, inclusive em projetos de estética. Existe legitimidade em uma beleza livre, sem preconceitos e opressão, alinhamento com a ética e com a justiça social se afastando do jogo da opressão e da violência. Um exemplo prático sobre a transformação da sociedade é uma mudança na visão da revista Vogue (padrão de beleza sem padrão, mais inclusivo e com menos preconceito). Esta mudança na visão da revista se alinha com a própria transformação recente vista na sociedade, uma vez em que discursos considerados hegemônicos estão sendo tratados com ressalvas em favor de mais inclusão, debates, aceitação de padrões considerados “fora do padrão” ou de minorias historicamente excluídas E isto também mostra a importância da existência de livros infantis e personagens infantis que retratam os cabelos cacheados e encaracolados como forma de não reproduzir a norma excludente do padrão liso.

Essa reparação histórica é essencial para a construção de uma sociedade mais igualitária em que as diversas visões de mundo possam ser englobadas, de forma que o corpo do outro não seja um tabu nem para si e menos ainda seja visto como uma imposição ao ser e existir, como é numa ditadura.

Portanto, o papel do nutricionista é contribuir para a existência de diferentes padrões de beleza a fim de rever padrões considerados hegemônicos para que a visão da ditadura da beleza seja algo ultrapassado e para que possa ser transformado para além de uma ditadura, a fim de transformar a própria existência em algo belo.


Texto escrito por Gabriel Lupoli, Laís e Renata Torres - Diretores de Comunicação e Marketing (Assessoria de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula ministrada pela Prof. Fernanda Scagliusi.


 
 
 

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