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Gêneros e Sexualidade: uma visão da Nutrição

  • Foto do escritor: Marhya Júlia Silva Leite; Tamiris Isabeli da Silva
    Marhya Júlia Silva Leite; Tamiris Isabeli da Silva
  • 17 de ago. de 2021
  • 4 min de leitura

Atualizado: 9 de nov. de 2021



Em 2021 foi lançado pelo Conselho Regional de Nutricionistas 1a Região o Guia de Cuidado e Atenção Nutricional à População LGBTQIA+. Os primeiros desafios a serem combatidos na construção deste guia se deram por haver o questionamento da necessidade de uma abordagem da nutrição com intersecção específica para esta comunidade. Este guia tem como enfoque auxiliar tanto na questão de facilitar o entendimento do assunto aos profissionais da saúde que atuam em atendimentos nutricionais, acolhimento e assistência com este público, quanto para reduzir os impactos negativos que a população LGBTQIA+ sente nos espaços de serviços de saúde. Além disso, se faz necessário tal assunto uma vez que esta população apresenta risco maior de insegurança alimentar e nutricional, a exemplo do que ocorre com parte das pessoas trans e travestis que são muitas vezes expulsas de casa com uma média de idade de 14 anos.

Ademais, existem questões fisiológicas específicas aos indivíduos intersexo, o que não se é explorado nos cursos de graduação de nutrição e medicina, por exemplo, gerando uma brecha no cuidado em saúde integral destes. Dentre deste quesito é importante mencionar que parte desta população utiliza a hormonização cruzada, como hormônios, bloqueadores e modulares hormonais que causam mudanças fisiológicas que impactam nas questões da nutrição, como as limitações atuais nas avaliações e recomendações nutricionais adequadas, considerando aspectos como gestação e lactação para além de casais cis e heterossexuais, como a colactação, indulção de lactação, desenvolvimento da glândula mamária a partir do uso de hormônios, etc.

Junto a tais questões há de se considerar tópicos que favorecem a descriminação e preconceito, de maneira que o guia auxilia na quebra destes paradigmas, como a epigenética, como aspectos genéticos que impactam na saúde cardiovascular, os riscos para o desenvolvimento de transtornos alimentares, vivências que podem alterar o ciclo circadiano, sendo que 85% das mulheres trans e travestis trabalham como profissionais do sexo por falta de oportunidade no mercado formal de trabalho, falhas no sistema renal, como infecções urinárias e alistiase renal por falta de acesso à banheiros na rua e falta de sensibilidade para a produção de dados para a produção de políticas em saúde e nutrição a partir de acompanhamentos na formação em saúde de profissionais capacitados, gerando uma escassez de referenciais teóricos no Brasil.

Desta forma, o guia é introdutório a fim de auxiliar profissionais da nutrição a realizar o acompanhamento nutricional com compreensão da população LGBTQIA+, e população em geral, como não hegemônica, assim como ser referência para pesquisa, ensino e extensão nas universidades em disciplinas de Saúde Pública como Doenças e Agravos Não Transmissíveis, Transtornos Alimentares, Políticas de acesso do SUS, Insegurança Alimentar e Epidemiologia, assim como de Nutrição, em Avaliação Nutricional e Condutas, Fisiologia, Bioquímica, Farmacologia e Dietoterapia.

Portanto, tal carência demonstra a necessidade da reformulação das grades curriculares da graduação e pós-graduação, sensibilização de docentes, discentes e sociedade, melhorias nas políticas de vagas afirmativas e de permanência nas universidades e a produção de ciência neutra e abrangente.

Ainda, além da questão da população LGBTQIA+, é importante relacionar de que forma se dão as relações entre gênero, sexualidade e alimentação e quais são os desafios para produzir cuidado nutricional que considere esses fatores. Neste âmbito, o ponto de início é correlacionar o direito humano à alimentação adequada, à um acesso pautado em estruturas sociopolíticas e culturais de um povo de um território.

No Brasil, esta estrutura social e política é capitalista produtivista, que traz marcas coloniais, escravocrata, racista, patriarcal e LGBTQIA+fóbica, produzindo desigualdades no acesso à terra e alimentos, como fator de insegurança alimentar e nutricional, que é muito forte no que diz respeito à população de rua, como mulheres que apresentam vulnerabilidade social e a dificuldade de vivenciar o direito de produção do próprio alimento, o que potencializa negligências em relação ao acesso ao alimento, muitas vezes, apenas pelo fato de ser mulher.

A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) de 2017 e 2018 traz olhar para esta estrutura, que marginaliza corpos que saem das margens produtivistas e estéticas que o capitalismo impõe, mesmo que ainda sob um olhar binário, justamente a respeito de como essa questão de gênero influencia na insegurança alimentar e nutricional.

Nesta pesquisa podemos ver por exemplo, mesmo que de forma defasada, já que não possui um alcance nacional, que domicílios chefiados por mulheres ou pessoas pretas e pardas sofrem de insegurança alimentar e nutricional. Não à toa, quando pensamos na população em situação de rua, historicamente, este público a compõem, apesar de mostrar uma minoria de mulheres nesta condição, quando comparado com a presença masculina, o que vem sendo modificado a partir do agravamento da fome e da insegurança alimentar e nutricional vista na pandemia, sendo importante mencionar que a insegurança alimentar e nutricional não começa na rua ou na pandemia, mas sim, espelha um processo de descaso com investimentos em setores de desenvolvimento social, segurança alimentar e cuidado e atenção às questões que marcam a estrutura social, cultural e política do país.



Texto escrito por Marhya Júlia Silva Leite e Tamiris Isabeli da Silva - Diretoras de Comunicação e Marketing (Assessoras de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula de Isis Gois, Fernanda Sabatini, José Miguel Nieto Olivar e Lewestter Melchior.

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