HIV/AIDS
- Marhya Júlia Silva Leite; Matheus Lisboa; Renata Torres; Tamiris Isabeli da Silva

- 23 de nov. de 2021
- 6 min de leitura
Inicialmente, é certo que os assuntos que permeiam a sexualidade ainda são tabus na nossa sociedade, são evitados por grande parte dos adultos e intocáveis para crianças e adolescentes. Com isso, estabeleceram-se diversos estigmas envolvendo a orientação sexual, identidade de gênero e doenças sexualmente transmissíveis, como a ideia de que somente homens gays podem contrair HIV/AIDS e de que, em geral, todos eles possuem essa doença apenas por serem homossexuais. Apesar de já termos informações suficientes para saber que qualquer pessoa com vida sexual ativa pode contrair HIV/AIDS, seja ela hetero ou homossexual, homem ou mulher, rico ou pobre.
Mais especificamente, antes de adentrar os estereótipo do HIV/AIDS, pode-se destrinchar a sexualidade em 3 dimensões: o sexo biológico, a orientação sexual e a identidade de gênero.
Quanto ao sexo biológico, refere-se aos aspectos genéticos, sendo apenas XX, mulher e XY, homem, sem liberdade de escolha para cada um, leva-se em consideração somente a ciência. Já a orientação sexual, refere-se a qual dos sexos apresenta-se um desejo sexual, independente de fatores genéticos, assim, esse aspecto também não deixa liberdade de escolha, pois ninguém escolhe por quem vai se interessar. Por último, a identidade de gênero se refere a qual gênero a pessoa se identifica, a qual ela sente pertencimento, sendo algo mais abstrato do que os outros dois conceitos e mais relacionado à construção social do que à fatores biológicos.
O ato de amar é inato, mas como lidar com a questão do desejo, o aspecto não é ensinado. Você pode aprender a lidar com o desejo, agora o fato dele existir é natural, porém a discussão de gênero na escola ainda não é muito bem entendida, não é possível ensinar alguém a ser gay ou ser lésbica, ensinado um gosto que ela tem ou não tem. O máximo que conseguimos é reprimir aqueles desejos que são errados, se é ruim você se sentir culpado por gostar de algo, reforçam ainda mais o grau de estigma e culpa que as pessoas podem ter acerca daquilo.
Historicamente, o que é ser homem ou ser mulher é socialmente construído, as sociedades vão construindo essas identidades e exigindo que essas tais identidades sejam mais ou menos respeitadas. O que vemos é que a cultura dominante é extremamente heteronormativa, partindo do principio que deve existir um alinhamento entre o sexo biológico, orientação sexual e identidade de gênero - indo de encontro com a palavra cis, que em grego quer dizer alinhado.
Por outro lado o trans - na acepção do significado- é alguém que transita ou navega, a pessoa nasce com o sexo biológico x,y,z, mas constrói uma identidade de gênero diferente da esperada, não alinhada com o sexo biológico do nascimento. A orientação sexual está beirando os significados anteriores, mas não necessariamente se alinhando com uma coisa definida.
Esses conceitos não se alinham tanto e isso é que parece assustar tanto os seres humanos, daí surge a necessidade de “controle” extremo da sexualidade. Principalmente o controle das sexualidades das mulheres feita por parte dos homens e dos homens gay por parte dos homens héteros. Marilena Chauí tem um conceito interessante que percebe que muitas vezes o que é diferente pode se tornar desigual, a diferença também ganha valores, ou seja, algumas valem mais e outras vale menos.
Já se tem claro o jeito que a sociedade está construída que o que vale mais é ser branco, ser homem e ser hétero. Depois de muito descer nos graus de importância, nossa sociedade enxerga a “carne mais barata do mercado”, que é a mulher preta, que seria enxergada com menor valor, uma percepção puramente ideológica que remete uma disputa de poder, onde indivíduos são mais ou menos valorizados, raiz do que enxergamos no estigma e discriminação.
Nesse sentido, é comum vermos as pessoas com orientações sexuais não heteronormativas serem desvalorizadas, com desejo deslegitimado e considerado errado. Isso tem um impacto significativo na autoestima, pois a pessoa tem que lidar com toda essa carga imposta. Tudo que é muito central na identidade de alguém e é desvalorizado por outrem tem um peso muito grande. Por outro lado, respeitar as diferenças sem jogar valor de desigualdade é que pode ser uma jogada de resistência.
Olhando para o caso do HIV/AIDS, há um conjunto de descriminação e estigma que está girando nesta roda de gênero e orientação sexual, em cima de questões de poder e dominação, como em outros grupos que são afetados por essas mazelas da sociedade. O portador sente impactos sérios, basta imaginar o temor só de ir realizar o teste, muitas vezes nem existe o medo de morrer por conta da doença, mas sim o pesadelo é pensar na queda reputacional, que é ainda maior em quem é homesessual.
Hoje em dia, se houver a detecção do vírus e tratamento precoce, pode ser que nem se chegue a desenvolver AIDS, já que essa doença só se dá quando realmente o sistema imunológico está comprometido. Uma pessoa tratada não tem o vírus circulante, não só está sem AIDS, como, também, não transmite a doença. Atualmente, a melhor coisa que existe para alguém que porta o vírus do HIV é descobrir que o possui, já que ela pode começar a se tratar e ficar bem, não evoluir com a doença e não transmitir para ninguém.
O relatório da UNAIDS foi realizado com pessoas de várias regiões e procurou entender a percepção do estigma de portadores do vírus. Algumas impressões que foram retiradas do relatório são expostas a seguir:
Caracterização da identidade de gênero e raça/cor:
Identidade de gênero (n = 1.784) Homem cis 1.121 (62,8%); Mulher cis 550 (30,8%); Mulher trans ou travesti 101 (5,7%); Homem trans 8 (0,4%); Prefiro não responder 4 (0,2%).
Em relação à sua raça/cor, como você se identifica? (n = 1.778) Pardo 671 (37,7%); Branco 539 (30,3%); Preto 492 (27,7%); Indígena 42 (2,4%); Amarelo 34 (1,9%).
“Viver com HIV ser negro e de periferia são vivências turbulentas. Cada dia é matar uma manada de leões. Homossexual então... mas nada é por acaso. não se pode voltar no tempo, mas ao me tratar e me cuidar, trato e cuido do próximo. e assim vamos vivendo um dia de cada vez.” Homem CIS, PReTo, GAY, 40 Anos
ESTIGMA INTERNALIZADO —O MODO COMO VOCÊ SE SENTE SOBRE VOCÊ MESMA/O— E RESILIÊNCIA
“Nasci com HIV, logo, não sei como é a experiência de não tê-lo. Aprender a viver e viver com HIV, são termos equivalentes em minha história.” mulHeR CIS, PReTA, lÉSbICA, 22 AnoS “Tenho dificuldades depois da sorologia em me relacionar com parceiros depois dessa infecção. Não tenho ainda coragem de revelar, ou melhor, evito até me relacionar depois do diagnóstico. Talvez o preconceito esteja em minha mente. Preciso aceitar esse diagnóstico mais, para poder ter ou voltar a confiar no ser humano. quero dizer até em mim mesmo. mas vou chegar lá e aceitar porque dói menos. bola pra frente.” mulHeR CIS, PARDA, HeTeRoSSexuAl, 63 AnoS
INTERAÇÕES COM SERVIÇOS DE SAÚDE
"Em 2009, eu estava grávida, passei mal e fui atrás de atendimento médico na maternidade. Eu estava com 4 meses de gravidez. Sem meu conhecimento e consentimento, fui testada para HIV. Quando recebi alta, me entregaram um envelope fechado e disseram para procurar a UBS onde eu fazia o pré-natal. Chegando lá, a enfermeira ao abrir o envelope me chamou reservadamente e revelou a sorologia HIV+. Em 2011 entreguei no trabalho um atestado médico de 15 dias (...). Três dias depois minha dispensa estava efetivada e corria o boato da minha sorologia em toda a empresa." mulHeR CIS, PARDA, HeTeRoSSexuAl, 32 AnoS
"Na unidade de saúde em que me trato, logo quando recebi o meu diagnóstico um médico expôs a minha sorologia na sala da recepção da enfermaria. Na hora, me senti muito envergonhada e constrangida, pois haviam outros pacientes presentes. Fiquei muito desconfortável. Recentemente, na mesma unidade, uma médica ao me atender para fazer mamografia não quis me respeitar em relação ao meu nome social." mulHeR TRAnS, PARDA, 37 AnoS
Caracterização de dados relativos à soropositividade e relacionamentos
Há quanto tempo você sabe que é soropositiva (o) para o HIV? (n = 1.762) Média = 10,61 anos.
Atualmente, você tem uma relação afetiva e/ou sexual com alguém? (seja casada ou não) (n = 1.784) Sim 897 (50,3%); Não 887 (49,7%).
Você é membro de uma rede ou grupo de apoio para pessoas vivendo com HIV? (n = 1.759) Sim 820 (46,6%); Não 939 (53,4%).
Relatório Completo
Texto escrito por Marhya Júlia Silva Leite, Matheus Lisboa, Renata Torres e Tamiris Isabeli da Silva - Diretores de Comunicação e Marketing (Assessores de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula de Arthur Kalimann e Márcia Couto.




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