Imagem Corporal e Distorção da Imagem nos Transtornos Alimentares
- Marhya Júlia Silva Leite; Tamiris Isabeli da Silva

- 20 de jul. de 2021
- 9 min de leitura

A imagem corporal é um conceito que abrange dois aspectos importantes, o sensorial/perceptual e o atitudinal/cognitivo. O primeiro aspecto está relacionado com reconhecer o corpo como ele é, entendendo todas as suas partes constituintes, entendendo qual a localização de cada parte do corpo, entendendo que o corpo possui uma certa altura, dimensão, limite e forma, percebendo a relação do corpo com o espaço que o rodeia.
Todas essas informações são necessárias para que o corpo se movimente, para que seja atribuída força adequada para cada movimento, equilíbrio e tudo que envolve postura e como esse corpo se localiza no ambiente. Essas informações chegam até o cérebro pelo acionamento do corpo e são processadas. Dessa forma, os receptores sensoriais enviam dados sobre cada parte do corpo a todo momento, informando por exemplo, a velocidade dos movimentos, variações de temperatura, sensação de dor, entre outros, criando uma representação neural do corpo.
Outro componente que forma a imagem corporal é o componente atitudinal, ou seja, o julgamento que a pessoa tem do seu corpo e todas as atitudes que a pessoa decide ter devido ao seu corpo, criando ou não uma autoaceitação. Por isso, a imagem corporal é um fenômeno multimodal, portanto, ele depende de inúmeras informações para completar essa imagem para o indivíduo.
Cada componente é organizado em áreas diferentes do nosso córtex. Em azul estão as áreas responsáveis por formar o mapa corporal no cérebro, que passam de áreas mais simples que trabalham em conjunto até chegar em áreas mais elaboradas. A partir dessa informação, isso será enviado para as áreas em roxo, responsáveis pelo comportamento do indivíduo, especialmente a área pré-frontal, que está relacionada com as decisões feitas a partir desse conhecimento de como é o corpo.

Dessa forma, os distúrbios da imagem corporal que podem ocorrer, estão muito relacionados com os transtornos alimentares. Estes são transtornos psiquiátricos que se correlacionam com os comportamentos alimentares e com a percepção comprometida do próprio corpo. Portanto, os pensamentos e emoções ligadas ao corpo e à alimentação provocam sofrimento e um grave impacto na qualidade de vida.
Os sintomas prevalentes desses transtornos são de preocupação excessiva com a alimentação, com pensamentos relacionados aos efeitos negativos que a alimentação pode trazer àquela pessoa, principalmente através da preocupação do aumento do tamanho do corpo. Sendo assim, todos os aspectos da vida do indivíduo se voltam para a preocupação com a comida e o peso corporal.
Também é muito comum que as pessoas com esses transtornos façam ou já tenham feito dietas restritivas, com intuito de reduzir de forma extrema o peso corporal. Ademais, esses indivíduos utilizam de métodos inapropriados (como os compensatórios e purgativos) para alcançarem o corpo que consideram ideal, trazendo ainda mais malefícios para a saúde.
Dentro dos transtornos alimentares existem fatores que predispõem a doença. O fato do indivíduo ser do sexo feminino é um fator predisponente para a ocorrência desses transtornos. Além disso, outros fatores predisponentes são o histórico familiar de transtorno alimentar, comorbidades psiquiátricas, baixa autoestima, perfeccionismo, dificuldade em expressar emoções e valores culturais, que fazem suas definições sobre o que é beleza.
Há também os fatores precipitantes, que são como um “gatilho” para esses transtornos, sendo um dos principais fatores as dietas. Outros fatores são a perda ou separação dos pais, alterações na dinâmica familiar ou situações que geram estresse emocional, expectativas irreais na escola, trabalho ou vida pessoal, e a proximidade da menarca no caso das pessoas que menstruam. Ademais, há os fatores mantenedores dos transtornos, que podem ser por alterações neuroendócrinas, distorções cognitivas, práticas purgativas, distorção da imagem corporal e aceitação social.
A distorção da imagem corporal ocorre quando a pessoa enxerga seu tamanho de corpo e peso de forma diferente do que ele é na realidade, normalmente, tendo a crença que o corpo é “deformado”, maior e mais pesado, o que traz muitos prejuízos para o indivíduo. Há uma distorção nos conceitos atitudinal e perceptual, que são responsáveis por formar a imagem corporal.
O conceito atitudinal se mostra distorcido quando o paciente demonstra uma intensa insatisfação e preocupação com o corpo e a forma corporal e cria atitudes negativas em relação ao peso, forma e dimensão de seu corpo. Já o segundo conceito, o perceptual, se mostra alterado quando há uma incapacidade do indivíduo em reconhecer a dimensão corporal e seus segmentos de forma precisa.
Portanto, se a pessoa ao longo da vida teve uma vivência positiva com sua forma do corpo, tamanho e peso, ela tende a desenvolver um autoconceito e uma relação mais positiva com o corpo. Porém, caso o inverso ocorra e este corpo tenha vivido com muitos julgamentos e percepções ruins, pode haver então a formação de um autoconceito negativo e uma insatisfação corporal.
A percepção do corpo de forma distorcida pode ocorrer de modo que a pessoa se perceba menor do que realmente é. Há também a distorção em que o indivíduo acredita que seu corpo é maior do que é na realidade. Outra maneira de distorção corporal é a de não entender/notar a existência de certas partes do corpo, negligenciando essas partes, não entrando em contato com aquela área, que acaba sendo “apagada” do mapa corporal no cérebro da pessoa.
A distorção da dimensão corporal é frequentemente relatada, de forma intensa, em casos de pessoas diagnosticadas com anorexia ou bulimia nervosa. Também é possível observar a presença da distorção corporal em pacientes que apresentam compulsão alimentar, obesos e pós-bariátricos e pacientes com transtorno dismórfico corporal.
Grande parte dos indivíduos com transtornos alimentares possuem distorção da imagem corporal associada com insatisfação com o corpo. Há também pacientes que não apresentam a distorção da dimensão do corpo, mas que podem estar tão insatisfeitos com o corpo que isso ainda sim causa prejuízos à saúde da pessoa. Especialmente nas mulheres, é possível notar que grande parte delas possuem insatisfação com o corpo, enxergando-o maior do que realmente é, mas nem todas possuem algum transtorno alimentar.
Quando o indivíduo apresenta imensa preocupação com o corpo, realizando restrição e/ou métodos compensatórios com o objetivo de diminuir o tamanho do corpo através de formas não adequadas, entende-se que há um dano à saúde, já que todos os aspectos da vida da pessoa se voltam a essa obsessão com o corpo. Sendo assim, essas questões devem ser tratadas com uma equipe de profissionais de saúde adequados, que sejam especialistas nesses assuntos.
A distorção da imagem corporal, portanto, é o registro de como a pessoa se imagina que é na realidade. Essa imagem que está no mapa corporal, no córtex cerebral, geralmente, é de um corpo disforme e por isso essas pessoas buscam meios de alterar essa conformação para diminuir o sofrimento que sentem ao pensar no próprio corpo.
Um dos pontos mais marcantes nessa distorção é que o indivíduo perde a noção de onde o seu corpo termina, apagando a visão dos limites do corpo, como se não houvesse bordas e fim para esse corpo. Além disso, a imagem mental que essas pessoas possuem sobre a própria conformação não é clara e definida sobre como realmente se parecem, o que gera grande insegurança. Dessa forma, quando a pessoa se olha no espelho, ela visualiza a imagem corporal que está gravada em sua mente.
Os pacientes que possuem essa distorção também imaginam que todo alimento que consumirem irão se espalhar por esse corpo que visualizam, aumentando e “deformando” este corpo instantaneamente. Por isso, há também uma dificuldade em se alimentar, sendo necessário que o profissional nutricionista entenda a complexidade de um caso como esse ao atender um paciente com distorção corporal.
Algumas atitudes são marcantes nos indivíduos que possuem essa distorção da percepção corporal. O excesso de exercício físico, realizado durante várias horas e várias vezes ao dia, com foco na diminuição do corpo, compensando o que foi consumido, é uma das atitudes mais marcantes. Outras atitudes comuns são a de evitar se sentar muito perto de outras pessoas, no mesmo sofá por exemplo, ou em cadeiras/assentos pequenos, já que elas imaginam que o corpo delas é tão grande que não há como caber naquele local, o que na realidade não é verdade.
Essas pessoas frequentemente se sentem muito julgadas, porque se preocupam com o que outras pessoas possam pensar sobre o corpo que elas acreditam que possuem. Isso pode gerar um isolamento desse paciente, evitando se encontrar com outras pessoas e saírem de casa para eventos sociais. Sendo assim, é possível ver como a distorção da dimensão corporal associada aos transtornos alimentares possui grandes impactos na vida de quem sofre com isso.
Outras atitudes inadequadas e comuns nessas pessoas são a de tomar laxantes, diuréticos e realizar a purgação (vômitos), com o intuito de diminuir o peso e tamanho do corpo. É importante ressaltar que essas práticas possuem danos sérios à saúde do indivíduo e por isso devem ser tratadas com muito cuidado pela equipe profissional.
Uma das primeiras experiências que podem levar a essa distorção ocorre durante a infância e adolescência, pois é nessa fase que ocorrem diversas mudanças no corpo do indivíduo, incluindo o crescimento. Durante esse período, esses jovens podem sofrer comentários negativos sobre a aparência física, principalmente quando a conformação do corpo se diferencia dos outros colegas de mesma idade.
Essas informações negativas vão formando o mapa corporal do adolescente em seu córtex, criando a referência incorreta de que o seu corpo é muito maior do que os outros a sua volta. Ademais, esses comentários negativos podem se estender ao ambiente familiar, em que esses jovens continuam ouvindo informações ruins sobre seu corpo e alimentação, prejudicando ainda mais sua percepção corporal.
Outra grande influência para essa visão negativa sobre o próprio corpo são as mídias, que criam um ideal de magreza que dificilmente é possível alcançar dentro de um contexto saudável. Além disso, essas redes possuem diversas imagens alteradas, com filtros e aplicativos de edição, mostrando corpos irreais com a supervalorização do corpo magro, que contribuem para a insatisfação corporal dos indivíduos.
Essa desorganização sobre a visão do próprio corpo também pode ser causada por agressões físicas, morais ou abusivas que a pessoa tenha passado. Isso gera uma relação muito negativa com o corpo. É comum que o indivíduo que passe por uma agressão ou abuso faça uma desconexão com a parte do corpo que sofreu isso, não reconhecendo essa área em seu mapa corporal.
Os comentários alheios sobre o corpo de uma pessoa podem influenciar negativamente toda a sua percepção corporal, principalmente para indivíduos que já possuem uma relação negativa com o próprio corpo. Por isso, a premissa mais importante é nunca comentar e julgar o corpo do outro.
Essas informações negativas que o paciente recebe sobre o próprio corpo ao longo da vida vão gerar o processamento de uma imagem mental distorcida deste corpo. Dessa forma, existe uma incoerência no feedback da integração multimodal no córtex parietal, que facilita o desenvolvimento da distorção da percepção corporal. Os pacientes com transtornos alimentares possuem uma desorganização na condução das informações sobre o corpo que são processadas dentro do cérebro.
A avaliação para definir se há distorção de imagem ocorre através de um teste com diversas silhuetas, cada uma delas representando um intervalo de IMC. O paciente então deve escolher qual das silhuetas representa melhor o seu corpo atual e qual representa o corpo que gostaria de ter. A discrepância entre as duas figuras escolhidas irá indicar o grau de insatisfação corporal que essa pessoa possui.
Há também um teste de avaliação da percepção corporal que avalia especificamente o componente perceptual da imagem corporal. Este teste calcula a diferença entre a dimensão real e a dimensão percebida do corpo do paciente, que gera um índice do qual é possível realizar a classificação da dimensão corporal, que pode ser avaliado em percepção adequada, hipoesquematia (se perceber menor do que realmente é) ou hiperesquematia (se perceber maior).
Essa distorção de imagem também pode ser classificada em níveis, sendo desde uma distorção leve até uma mais grave. Essas classificações contribuem para o seguimento do tratamento e para diagnósticos mais precisos sobre o paciente, mostrando para equipe que trata o indivíduo como ele se percebe e se possui essa distorção para todo o corpo ou para algumas partes do corpo específicas.
Dessa maneira, ao se ver desta forma muito maior do que é, o paciente tenta realizar atos para diminuir o tamanho deste corpo, geralmente de forma não saudável. Porém, não há uma satisfação com essas atitudes, pois mesmo que o corpo diminua, a imagem corporal no cérebro desse paciente continua distorcida e não representando a conformação real, causando prejuízos sérios para a saúde do indivíduo.
Enquanto a pessoa sentir que seu corpo continua grande, ela vai manter os métodos compensatórios e a restrição alimentar, na tentativa obsessiva de diminuir o desconforto com o tamanho do corpo. Por isso a distorção da imagem corporal é um fator mantenedor dos transtornos alimentares e um grande fator para recaída.
Somente dizer para a pessoa que ela está magra não é suficiente para resolver a situação de desconforto com a imagem corporal. Isso porque a construção neurológica do mapa corporal depende das aferências do sistema somatossensorial, o que mostra a importância de uma equipe multidisciplinar no tratamento, com atuação também de fisioterapeuta e educador físico especializado no assunto.
Podemos concluir então que, o tratamento de um indivíduo com distorção de imagem deve atuar tanto no componente perceptual quanto no atitudinal, com o objetivo de devolver a forma sadia e real de se reconhecer. Concomitantemente, é importante mudar os comportamentos relacionados a essa imagem corporal, sendo necessária a atuação do nutricionista para mudar as concepções sobre comida, comportamento alimentar e escolhas alimentares. Assim como é importante também a atuação de um psicólogo e psiquiatra, que irão contribuir para a mudança dos pensamentos sobre o próprio corpo.
Texto escrito por Marhya Júlia Silva Leite e Tamiris Isabeli da Silva - Diretoras de Comunicação e Marketing (Assessoras de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula da professora Bianca Thurm.




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