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Interseccionalidade da Nutrição

  • Foto do escritor: Marhya Júlia Silva Leite; Tamiris Isabeli da Silva
    Marhya Júlia Silva Leite; Tamiris Isabeli da Silva
  • 10 de ago. de 2021
  • 3 min de leitura

Ao falarmos de nutrição e complexidades alimentares é muito importante também contextualizar como esses fatores se desenvolvem nos contextos sociais do nosso país. É impossível falar sobre nutrição sem realizar interseccionalidades, ou seja, sem relacionar com as identidades sociais e os múltiplos sistemas de opressão da sociedade, que envolvem gênero, raça, classe, sexualidade, entre outros.

Lélia Gonzalez foi uma das primeiras intelectuais a falar sobre interseccionalidade no país. Em suas obras, ela explica como a discriminação com mulheres negras é muito mais forte e expressivo, pois reune opressões de gênero, raça e classe social.

Essas questões são indispensáveis para se pensar a alimentação da população brasileira, principalmente pois a história da construção desta sociedade é também uma história marcada por centenas de anos de escravidão, uma abolição que não trouxe garantia nenhuma de direitos para a população negra, que é discriminada e oprimida dentro da sociedade até os dias de hoje. Dessa forma, a desigualdade social é um fator marcante que não pode ser esquecido ao pensarmos sobre nutrição.

Em seu mais recente documentário, “AmarElo - É tudo para ontem”, Emicida aborda a intersecção das identidades sociais e o sistema de opressão vivido por elas, assim como a importância e o legado da cultura e da música para a população negra. Um dos marcos para essa valorização da cultura brasileira, foi a Semana de Arte Moderna de 1922, em que diversos artistas trouxeram destaque para a arte nacional, que teve grande participação de artistas negros, principalmente no samba.

No documentário, o cantor faz uma relação entre o plantar na terra e os frutos advindos dessa ação com as raízes da música brasileira e a representação negra no rap atualmente. Neste estilo musical, os jovens geralmente de periferia possuem a oportunidade de usar sua voz para falar sobre os problemas sociais e angústias que enfrentam no dia a dia. Sendo assim, podemos ver como a arte tem o poder de não somente valorizar a cultura de diversos povos, mas também de ser uma importante ferramenta política.

Considerando que mais de 50% da população brasileira é composta por pessoas negras, é importante que os profissionais nutricionistas tenham uma atuação voltada ao atendimento dessas pessoas, respeitando todas essas questões culturais e sociais que envolvem a vivência desses indivíduos, assim como suas individualidades na alimentação. Dessa forma, desenvolvendo uma atuação profissional que seja inclusiva para todas as raças, gêneros e classes sociais.

Emicida também destaca em seu documentário as dificuldades da população negra em enfrentar ao longo de todos esses anos a violência e opressão policial. É possível ver como a discriminação racial afeta todos os aspectos da vida dessas pessoas. Portanto, é necessário questionar como esses indivíduos podem pensar em uma alimentação saudável e de qualidade quando nem mesmo seus outros direitos básicos de vida são garantidos dentro da sociedade.

Ainda em relação à violência policial sofrida por esse grupo de pessoas, o cantor relembra também o uso da ferramenta estatal e jurídica para validar prisões arbitrárias de indivíduos negros na década de 1940, com a chamada “Lei da Vadiagem”, em vigor até hoje. Desse modo, policiais da época prenderam diversos sambistas que viviam de sua música pelas ruas, candomblecistas e capoeiristas. Ademais, ampliaram-se também as prisões de pessoas que trabalhavam na prostituição e perseguiram pessoas transsexuais.

Mais uma vez, podemos ver como a interseccionalidade é importante para entender as estruturas sociais e as desigualdades existentes. A questão de gênero é essencial para se pensar na nutrição, pois muitos parâmetros de recomendações e cuidados nutricionais são pensados de forma binária, sem considerar outros gêneros.

Durante a pandemia de Covid-19, essas desigualdades sociais se acentuam cada vez mais, de forma que pessoas mais pobres se contaminam mais e morrem mais. Um caso emblemático dessa questão foi o de uma das primeiras vítimas do coronavírus no Brasil, uma mulher, negra, empregada doméstica, que foi contaminada através do contato com seus patrões, brancos, de alta classe, que viajaram para o exterior.

Com a pandemia, houve também maior insegurança alimentar, que atingiu de forma mais expressiva as populações mais pobres, que frequentemente também são as de pessoas negras. Por isso, pensar nas questões sociais que envolvem raça, gênero e classe são essenciais para pensar também no acesso a alimentação de qualidade, segurança alimentar e determinantes na escolha alimentar.

Portanto, vemos que uma ação antirracista é essencial na atuação do nutricionista, que deve considerar todas essas interseccionalidades ao lidar com a alimentação da população. Desse modo, a alimentação de todos os indivíduos deve ser sempre pensada em seus contextos socioculturais, políticos e econômicos, ampliando a visão da nutrição e considerando todas as complexidades que envolvem o ato de se alimentar.



Texto escrito por Marhya Júlia Silva Leite e Tamiris Isabeli da Silva - Diretoras de Comunicação e Marketing (Assessoras de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula da professora Fernanda Baeza Scagliusi.


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