Meio Ambiente e Alimentação: a questão do agronegócio, transgênicos e agrotóxicos no Brasil
- LANCA - USP
- 13 de jun. de 2022
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A questão do agronegócio brasileiro é um assunto muito discutido por diferentes fatores e pontos de vista: tem-se que o Brasil é uma potência agrícola, considerando seus números de produção e exportação de produtos da agricultura e todo o dinheiro movimentado nessa área no país. Dessa maneira, tem-se que o foco dos latifundiários, os que possuem a maior parte da terra disponível para agricultura, são os commodities, como a soja, milho e algodão, ou seja, não são produtos que alimentam o povo brasileiro, mas que enchem o caixa dos seus produtores. Assim, o que realmente nutre a nação são os pequenos agricultores, que plantam frutas, vegetais, legumes e vendem nas localidades próximas. No entanto, a questão discutida é: qual dos grupos, lati ou minifundiários, deveria ser mais valorizado e cuidado pelo governo do país, o que, atualmente, é dado pelos governantes aos grandes produtores, mesmo que isso leve à falhas no abastecimento alimentar da população, aos preços impagáveis dos alimentos de base, desvalorização da moeda, perda de financiamento e assistência técnica para a agricultura familiar.
Outro ponto bastante questionado é o quão seguro e recomendável é a utilização de plantas transgênicas, visto que os efeitos do consumo delas a longo prazo ainda não foi plenamente estudado, mas, mesmo assim, já é quase impossível comprar alimentos industrializados livres de transgênicos. Seus defensores dizem que o uso desse tipo de planta é em benefício da população em geral e que diminuem a necessidade da aplicação de agrotóxicos, mas esse argumentos não se fundamentam, visto que os benefícios se restringem a parcela rica da população, que conseguem produzir mais, vender mais e deixar os pequenos produtores seus dependentes em toda nova safra, além de não levar a diminuição do uso de defensivos agrícolas, pois o fato das plantas transgênicas serem mais resistentes a eles permite aplicações em concentrações ainda maiores e mais tóxicas ao ser humano.
Ademais, é cada vez mais valorizado o consumo de produtos não contaminados por agrotóxicos, porém também é cada vez mais difícil conseguir isso, pois estudos já mostram a presença de defensivos agrícolas desde a farinha de trigo até o feijão, o que já abrange a grande maioria dos alimentos industrializados, sendo eles minimamente processados, como as leguminosas, ou ultraprocessados, como biscoitos recheados e salgadinhos. A alternativa, que muitos pensam, é a de só se alimentar, então, de alimentos sem produtos agrícolas, ou seja, animais e seus derivados, todavia, isso não se aplica, visto que os animais em vida são alimentados com rações compostas de vegetais, a soja por exemplo, e concentram ainda mais os agrotóxicos presentes em sua fonte de nutrientes. Assim, é praticamente impossível uma alimentação completamente orgânica graças aos abusos do agronegócio.
Mas se os agrotóxicos atuam sobre insetos, plantas e microrganismos patogênicos, qual é o problema dos seres humanos consumi-los? essa questão é problemática devido aos efeitos dos defensivos também no organismo humano, pois eles são criados para agir em células eucariontes, com exceção dos que atuam em bactérias apenas, e o ser humano é formado por esse tipo de organização celular, desse modo, já foram averiguados diversas reações do contato de agrotóxicos com os indivíduos, não no instante consumido, mas a longo prazo, pois esses defensivos agrícolas estimulam a mitose das células, a qual aumenta as chances de mutações ocorrerem, levando a um caráter cancerígeno, a alteração na expressão gênica, a uma modulação epigenética, entre outros, que podem ocorrer desde o consumo nos próprios alimentos até a manipulação pelos trabalhadores rurais.
Portanto, qualquer iniciativa é válida, incluindo as escolhas individuais, pensando nos impactos ambientais do que é consumido por cada indivíduo, na origem do alimento comprado, se veio de um pequeno agricultor ou um latifundiário, se é orgânico ou com o uso de agrotóxicos, qual é a pegada ecológica de cada escolha alimentar, entre outros. Agora, quanto ao tema de plantações orgânicas, muito é especulado sobre sua suposta baixa produtividade e incapacidade de abastecer populações, mas já existem vários estudos nesse aspecto, mostrando como os alimentos orgânicos são mais sustentáveis e resilientes, com produtividade semelhante e, às vezes, até maior que os sistemas tradicionais, e comparando com o preço final, fica semelhante aos produtos transgênicos, visto que a semente transgênica encarece consideravelmente seus frutos.
Dessa forma, no âmbito dos nutricionistas, o que pode ser feito é a recomendação de uma dieta o mais natural possível, com consumo de orgânicos e produtos de pequenos produtores, aliada a desmistificação de que esse tipo de alimentos são mais caros e impagáveis, ao apontamento dos riscos dos agrotóxicos e transgênicos, além de procurar reverter a dieta típica ocidental dos dias atuais, pois é insustentável, com excesso de ultraprocessados, produtos animais e causadora de doenças crônicas. Já para nutricionistas responsáveis por unidades de alimentação, esses podem estimular e orientar suas unidades à compra de orgânicos e produtos da agroecologia da região, que inclusive podem trazer benefícios ao estoque do lugar, considerando que esse tipo de alimento dura mais por ter uma maior concentração de antioxidantes, compostos fenólicos e nutrientes.
Texto escrito por Matheus Lisboa e Renata Torres - Diretores de Comunicação e Marketing (Assessores de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula ministrada pelas biólogas Luísa Haddad e Débora de Lucca e pelo gestor ambiental Guilherme Reis.




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