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Nutricídio da população periférica

  • Foto do escritor: LANCA - USP
    LANCA - USP
  • 6 de jul. de 2022
  • 3 min de leitura

Nutricídio é um termo cunhado recentemente pelo médico norte-americano Llaila Afrika, uma das maiores autoridades em saúde e nutrição no mundo, ele é conceituado como o conjunto de fatores que revelam o genocídio alimentar contra populações negras, decorrente da destruição nutricional causada pelo sistema alimentar em que estão inseridas. Tal fenômeno também acontece com frequência nas grandes cidades do Brasil, tendo como vítimas uma população específica: negra e periférica.

O principal fator que precisa ser considerado é o sistema alimentar estruturado no país, extremamente baseado em capital, envolvendo desde o plantio dos alimentos, com o agronegócio focado na plantação, exportação de commodities e seus lucros, ao invés de pensar na fome e subsistência da população local. Logo, os grandes proprietários e senhores do agronegócio ficam cada vez mais poderosos e endinheirados, enquanto a agricultura familiar fica mais empobrecida, frágil e desamparada. Dessa forma, os alimentos que não são exportados, mas abastecem os consumidores brasileiros, são insuficientes para atender a todos, o que leva ao encarecimento dos produtos in natura, favorecendo, consequentemente, os produtos industrializados, que se inserem, cada vez mais, na cultura alimentar da sociedade, pois é, muitas vezes, a única opção que se tem a disponibilidade de encontrar a venda, em boas condições e a um preço acessível, principalmente à população periférica e mais pobres.

Um ponto a se considerar dessa manipulação dos hábitos alimentares com aumento do consumo de industrializados é que eles são, majoritariamente, feitos a partir de commodities, como trigo, soja e milho, favorecendo, novamente, os seus produtores.

Um exemplo do funcionamento desse sistema é o fato de que o Brasil é um dos maiores produtores de soja do mundo, mas esse alimento aqui é relativamente caro, pois a exportação é favorecida em prejuízo ao mercado interno…

Outra situação é que recentemente o Brasil precisou começar a importar feijão para alimentar seu povo, quando deveria estar sendo plantado aqui, visto que é um país predominante agrícola com total capacidade de se auto sustentar nesse aspecto, mas não é a realidade, devido às plantações de feijão terem sido substituídas por mais soja, e como resultado, tem-se tal alimento, tão essencial na mesa dos brasileiros, batendo recordes de custo.

Desse modo, o sistema alimentar quebrado, que começou lá nas plantações, chega a afetar até o comportamento alimentar das pessoas, visto que ele tem extrema relação com o ambiente inserido, ou seja, a escolha alimentar de cada indivíduo é induzida pelo espaço que ela está, o acesso aos diferentes tipos de alimento, desde in natura aos ultraprocessados, a variedade de opções, as dificuldades ou facilidades em adquiri-lo, quanto a distância, custo, praticidade de consumo, além dos próprios gostos pessoais, sabendo que a composição dos industrializados atrai muito mais que os alimentos in natura.

Assim, considerando as regiões periféricas e seus conhecidos desertos alimentares associados com os pântanos alimentares, isto é, áreas com acesso muito escasso a alimentos naturais ou minimamente processados, mas com ampla oferta de produtos ultraprocessados, com grande densidade calórica e baixa densidade nutricional, fica claro que a população desses locais terá um consumo muito maior que o recomendável de industrializados e mínimo de alimentos naturais, logo não é possível culpá-los por isso, o sistema impõe essa situação e suas consequências caem sobre cada indivíduo, muitas vezes, sem perceber que estão sendo desfavorecidos por essa influência a terem péssimos hábitos alimentares e a perderem sua cultura alimentar gradativamente.

Portanto, os nutricionistas precisam fazer o seu papel, agindo de forma adequada com a população negra e periférica, considerando todos os aspectos do sistema alimentar implantado e as questões de nutricídio de que é vítima. É necessário trabalhar tal sistema nas periferias, de modo a diminuir o reflexo de seus efeitos sobre os habitantes dessas comunidades, tendo como objetivo trazer o conhecimento sobre alimentação e nutrição para eles, através de, por exemplo, ações de educação nutricional, hortas comunitárias, workshops com linguagem clara e compreensível, entre outros.


Texto escrito por Renata Torres - Diretores de Comunicação e Marketing (Assessores de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula ministrada pelo nutricionista José Carlos.

 
 
 

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