Por que pensar diferente?
- Marhya Júlia Silva Leite; Tamiris Isabeli da Silva

- 25 de mai. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 28 de mai. de 2021

No Brasil, em meio a uma crise sanitária mundial, foi registrado até o dia 11/05/2021, que mais de 423 mil pessoas morreram de Covid-19, em um cenário em que apenas 7,2% da população brasileira recebeu as duas doses de vacina. Estes dados são alarmantes por si só, porém quando comparados a outras patologias adquire-se maior preocupação, como é evidenciado na análise de que, em um ano, mortes por Covid-19 no Brasil superaram o total de óbitos provocados pela Aids em 23 anos de registros.
Além desta questão sanitária, o país também enfrenta uma crise no cenário alimentar. No final de 2020, cerca de 43 milhões, ou seja, 20,5% dos brasileiros, não contavam com alimentos em quantidade suficiente e 19 milhões de pessoas, 9% desta população, estavam passando fome, o que representa a maior taxa desde 2004. Junto ao fato de ser o maior índice em 17 anos, é quase o dobro do registrado em 2018, sendo as regiões Norte e Nordeste as mais afetadas pela fome.
No mesmo viés, atualmente se é estudado as altas prevalências de obesidade e diabetes entre indígenas de diversas tribos, sendo atribuídas recomendações nutricionais e incentivo à prática de atividades físicas entre os indígenas como forma de prevenção, o que se define como soluções simplistas e focadas na medicalização, propostas por artigos científicos. A solução para enfrentar esses problemas de forma a abarcar toda a complexidade do assunto envolve a redução do acesso aos alimentos ultraprocessados, condições para que os indígenas possam recuperar seus próprios sistemas e práticas alimentares, com orientação daqueles anciãos mais sábios da aldeia, a demarcação de terras, o combate à grilagem e ao desmatamento, já que no ano de 2020 foi registrado um recorde no desmatamento na Amazônia, sendo que, entre janeiro e dezembro do ano passado, a floresta perdeu 8.058 quilômetros quadrados de área verde - a maior taxa de desmatamento dos últimos dez anos.
Outros aspectos brasileiros no tocante às questões sociais que devem ser ressaltados são aqueles que demonstram a disparidade na expectativa de vida da população, no caso de São Paulo, em 2020, era de 75,4 anos, sendo que no ano anterior, 2019, estava em 76,4. Isto em um cenário em que na região Sudeste, em 2021, pela primeira vez, a taxa de óbitos superou a de nascimentos.
Ainda na crise social, mesmo antes da pandemia, na cidade de São Paulo, um morador de bairro rico vivia até 23 anos mais do que residentes das periferias paulistanas. Somado a isso, analisando as mulheres brasileiras, temos que a taxa de feminicídios no Brasil é a quinta maior do mundo, sofrendo aumento expressivo durante a pandemia, no país onde, em 10 anos, o feminicídio em mulheres brancas caiu 9,8%, enquanto em mulheres negras aumentou 54%.
Além de crimes contra a mulher, a cada dia no Brasil cresce o número de casos de assassinato de homens e mulheres negros e de pessoas transssexuais. João Alberto, homem negro, morreu espancado por um segurança e um policial militar ao fazer compras no supermercado Carrefour, em Porto Alegre, em 19 de novembro de 2020, e há poucos dias, aconteceu a segunda maior chacina da cidade do Rio de Janeiro, sendo os alvos foram pessoas pretas, pobres e moradores de favela. O Brasil teve 175 assassinatos de pessoas transexuais em 2020, segundo o relatório anual da Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra), o que equivaleria a uma morte a cada 2 dias.
No recorte alimentar e socioeconômico, podemos encontrar também dados de pesquisas na cidade de Santos que mostram que alimentos ultraprocessados são mais presentes e baratos em bairros de baixo nível socioeconômico, em oposição aos bairros de alto nível socioeconômico, onde os alimentos in natura e minimamente processados são os mais presentes, baratos e de maior qualidade. Tais relatos causam preocupação uma vez que com a alta do dólar, o agronegócio prefere produzir commodities para exportação, como a soja. A produção de alimentos essenciais, como arroz e feijão cai e o preço desses alimentos sobe, favorecendo ainda mais as desigualdades.
Adiante, agora em relação ao agronegócio, em 2020 o governo aprovou 493 agrotóxicos em 2020, o que representa o maior número documentado pelo Ministério da Agricultura desde 2000.
Esta pandemia, somado ao dito anteriormente, criou corpos imóveis, que buscam prazer, descanso, segurança, distração e recompensa ao encomendar alimentos e refeições por aplicativos, ao mesmo tempo que também criou corpos hipermóveis de entregadores sucumbidos à saciar a vontade do outro grupo em troca de sua própria busca por alimentação minimamente digna, segurança e conforto praticamente inexistentes, neste sistema que propiciou o aumento do número de pessoas em situação de rua.
Sendo a pandemia relacionada às mudanças no estilo alimentar e de vida da sociedade e as práticas alimentares profundamente ligadas às mudanças climáticas, sociais e culturais, o correto deveria ser questionarmos não o porquê deve ser feito diferente, mas sim, entendido que não existem condições para permanecer o mesmo, seguindo protocolos, agindo sem reflexões acerca destes inúmeros pontos supracitados, e compactuando com tais abusos.
Desta forma é preciso dizer que em todas as suas ações, inclusive na prática clínica, o nutricionista é um agente político, e assim, não há de se livrar destes conceitos em sua formação e atuação profissional. Isto, em todos os ambientes, mas principalmente na sociedade brasileira, que em conjunto com muitos fatores fisiopatológicos, como o ambiente obesogênico em que estamos inseridos, que, por exemplo, subsidia a produção de refrigerantes em contraposição às discussões mundiais acerca da taxação de bebidas açucaradas, cria corpos obesos, mas não os tolera, aceita ou cuida.
Portanto, são necessárias mudanças que relembrem o preceito de que “O amor é o segredo de tudo”, como dito por Emicida em sua canção “Principia”, pois o cuidado nutricional e alimentar é uma atividade terapêutica que busca ativamente seu sentido existencial, sendo preciso o uso de tecnologias leves, como a escuta qualificada em encontros, que mudam usuário e profissional de saúde, que tocam e mexem com afetos, ou seja, a humanização na relação de cuidado, como pode ser entendido de moral da história “A senhora das ervas”, escrita por Jussara Leão Araújo, no caderno de contos do projeto "Convivendo Com Arte" de Gyslaine Avelar De Matos, junto a relatos pessoais de profissionais da saúde, e como será trabalhado ao longo dos encontros da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.
Texto escrito por Marhya Júlia Silva Leite e Tamiris Isabeli da Silva - Diretoras de Comunicação e Marketing (Assessoras de Produções Científicas) da LANCA - USP, baseado na aula da Professora Fernanda Baeza Scagliusi.




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