Relação Terapêutica
- Marhya Júlia Silva Leite; Tamiris Isabeli da Silva

- 29 de jun. de 2021
- 4 min de leitura

De acordo com o escritor e jornalista Eduardo Galeano, “somos o que fazemos, mas principalmente, aquilo que fazemos para mudar quem somos”. Dessa forma, podemos pensar que uma relação terapêutica é uma relação que potencializa essa mudança, potencializa a mudança de quem somos e de onde estamos.
Quando pensamos em uma terapêutica envolvendo dois indivíduos, como é no modelo da psicanálise, temos que essas pessoas estão unidas pelo vínculo terapêutico, para pensar e refletir sobre as questões de uma dessas pessoas. Embora nenhum caminho seja linear quando falamos de uma relação terapêutica, nesse contexto, uma das pessoas traz ajuda à outra. Por isso, não se trata de uma relação de igualdade, ao mesmo tempo que não se trata também de uma relação assimétrica, já que se unem em prol de um objetivo comum.
O vínculo é uma das questões mais essenciais quando falamos da terapêutica. Podemos defini-lo como a ligação, entre as duas pessoas envolvidas na terapêutica, na qual há afeto, sendo uma pessoa afetada pela outra. Esse processo de formação do vínculo é essencial para que o paciente se sinta mais confortável durante a terapia, assim como influencia na confiança do indivíduo em seu terapeuta.
Quem chamamos de terapeuta, que pode ser o psicólogo, o nutricionista, entre outros profissionais de saúde, não está nessa relação de maneira neutra, já que ele também é um indivíduo com suas “bagagens”, história de vida, crenças, concepções acerca do mundo, etc. Sendo assim, o terapeuta não atua somente com a sua visão técnico-científica, com seus estudos a respeito de sua área, todos esses outros fatores pessoais que formam esse indivíduo permanecem com ele durante a terapêutica e o que ocorre nessa relação também mexe com o terapeuta, que possui sentimentos a respeito dos pacientes, sejam bons ou ruins.
É importante que ao atender uma pessoa, o terapeuta também se apresente para o paciente, para que ele possa conhecer um pouco de quem irá atendê-lo. Uma vez posto isso em prática e realizado os questionários, anamnese e outras formas de obter uma dimensão inicial sobre o paciente, é importante estabelecer um contrato com essa pessoa, abrangendo desde questões a respeito da frequência dos encontros até em como vão ser tratadas as informações sobre este indivíduo. Esse contrato pode ou não ser um documento feito em papel para ser assinado pelas pessoas envolvidas.
Ademais, as mídias sociais são também um fator a ser pensado durante a relação, para que o terapeuta possa também definir como ele irá se inserir nesses meios, para quem irá falar e porquê. Refletir que atualmente as redes sociais possuem fácil acesso para um grande público é essencial, já que muitos pacientes podem ser afetados a partir do conteúdo postado pelos seus terapeutas, criando expectativas e frustrações.
Outro fator importante durante a terapêutica é analisar como a relação entre terapeuta e paciente ocorre. A psicanálise tem um termo específico que se chama transferência, que é quando o paciente projeta no terapeuta sentimentos e papéis de pessoas na vida dele. Portanto, é papel do nutricionista, nesse caso, pensar quais são as projeções que o paciente está fazendo no profissional e se são saudáveis para o indivíduo durante a terapêutica.
Outro conceito importante para entender mais sobre essa relação é o de resistência, que seria como “sabotagens” realizadas para prejudicar o andamento do tratamento, como não ir às consultas, não seguir as orientações, não se sentir mais tão pertencente àquela terapêutica. Isso pode ocorrer por diversos motivos pessoais a cada indivíduo, como exemplo, tratar sobre assuntos delicados e/ou desconfortáveis para o paciente, que exigem um tempo maior para que se possa lidar com eles.
Nesse momento, é de extrema importância que o terapeuta tenha paciência e dê tempo ao seu paciente para que ele se sinta pertencente à terapia. É preciso também que haja na relação terapêutica empatia, para se colocar no lugar do indivíduo e tentar entender o mundo pela perspectiva dele. A compaixão também é importante nesse processo, por ser um sentimento de humanização, o que ajuda a compreender que os assuntos tratados podem ser difíceis de lidar para o indivíduo na terapêutica.
As resistências também estão bastante ligadas com as ambivalências e com os chamados benefícios secundários, estes podem ser definidos como determinadas atitudes, pensamentos e sentimentos que possuem diferentes funções na vida do indivíduo. É importante pensar, então, para que esses fatores servem na vida do paciente, como exemplo, pessoas que possuem algum hábito que prejudicam a saúde, mas que continuam o mantendo, pois trazem algum aspecto bom ou prazeroso para a pessoa.
Além das questões citadas, para uma relação terapêutica que seja efetiva é imprescindível considerar as questões socioeconômicas dos indivíduos, para que assim se possa entender melhor o paciente e poder criar um vínculo verdadeiro com ele. Pois pensar a alimentação é também pensar no que é acessível para aquela pessoa e o que faz sentido dentro de sua rotina, contexto social e cultural.
Nesse sentido, a posição de hierarquia e de imposição de normas e regras para serem seguidas pelo paciente pode criar mais distanciamento do indivíduo e desmotivação. Sendo assim, acolher a pessoa sem julgamentos e culpabilização é importante nesse processo de criar o vínculo terapêutico, respeitando a liberdade de escolhas do indivíduo e sua trajetória de vida.
Uma relação terapêutica possui duração de médio a longo prazo, por isso, agir com compaixão com essas pessoas é essencial para manter essa relação. Dessa forma, o paciente pode entender que o profissional de saúde está ao lado dele mesmo nos momentos mais difíceis durante a terapêutica, levando em consideração os desejos da pessoa e não somente suas expectativas como profissional em relação ao seu paciente.
Texto escrito por Marhya Júlia Silva Leite e Tamiris Isabeli da Silva - Diretoras de Comunicação e Marketing (Assessoras de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula da professora Fernanda Baeza Scagliusi.




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