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Relação Terapêutica

  • Foto do escritor: LANCA - USP
    LANCA - USP
  • 23 de mai. de 2022
  • 4 min de leitura

A vulnerabilidade é definida como aquilo que experimentamos em momentos de incerteza, risco e exposição. Ela nos deixa ansiosos e com medo. O problema, segundo Brené, é quando evitamos situações e relações porque provocam esse sentimento. Ter coragem para arriscar, viver experiências novas, dizer coisas importantes, tudo isso implica abraçar a vulnerabilidade

Para de fato conseguirmos conexão com uma pessoa, indo para o cenário mais clínico, em que estaremos lá como sujeitos do cuidado, é necessário formar conexão. É ao mesmo tempo difícil avançar um trabalho clínico sem gerar conexão.

Existem diferentes tipos de atendimento que nós faremos, às vezes a pessoa pode requerer uma atenção muito simples, sem grandes vínculos, mas outras vezes temos que entender que a alimentação é complexa. Nesse sentido, o ato de alimentar é um fenômeno complexo e, de fato, para existir uma conexão com esses pacientes, é necessário que o profissional esteja muito presente, inteiro e autêntico.

Você não tem condições de fazer isso se você sentir vergonha, ou seja, se não abrir mão da sua vulnerabilidade. Às vezes, as pessoas acreditam que tem que ser uma pessoa no ambiente profissional e outra personalidade para o mundo real. Mas ser quem autenticamente você é pode ser a única maneira de gerar uma conexão.

Isso se deve ao fato que a outra pessoa precisa nos “sentir” e nos sentir vulneráveis pode fazer com que elas nos sintam abertos. Abre-se um canal paciente/profissional, essas vão sentir que estes profissionais têm capacidade de uma boa escuta, aquela escuta qualificada.

A consulta se torna não um simples agendamento, mas um encontro, o que vai ter um peso muito grande. Entender que cada indivíduo tem suas questões íntimas, seus "barulhos" próprios, como o próprio profissional tem, equaliza o encontro. Começamos a partir daí a ter um caminho para o vínculo, assim como a empatia.

A definição de empatia gira em torno de saber se colocar no lugar da outra pessoa, sendo que aquele indivíduo passou por certas circunstâncias e que elas merecem ser absorvidas pelo profissional. O pensamento é: como seria passar por essas coisas?

A adesão ao projeto terapêutico também tem que estar em linha com pensamento que muitas vezes há necessidade de enquadramento com o projeto de vida daquelas pessoas. Nos caberia como profissionais da saúde entender que além do projeto nutricional, há também um projeto de vida para ser melhorado.

Além disso, a ideia de adesão também pode ser entendida como uma transferência de responsabilidade, de culpa. Essa perspectiva errônea faz com que um profissional sempre veja no sujeito do paciente como responsável pelo fracasso, pelas falhas, além de ser um estigmatizante, que tem uma limitação e não uma vulnerabilidade.

Outro ponto importante da discussão é entrar em alguns aspectos da área da psicanálise, tangendo a nutrição. Nesse sentido, a um conceito em que os pacientes projetam em profissionais que prestam atendimento a elas certos papéis, fantasias, características. Sendo que esses aspectos não são próprios daqueles profissionais, enxergando como amiga, psicóloga, até mesmo como familiar.

Essa projeção muitas vezes está no inconsciente, porém muda a forma como os pacientes enxergam o profissional. Porém, não é algo exclusivo dos pacientes, uma vez que os profissionais também podem projetar um pai, uma mãe, amigo, pessoas que gostamos e não gostamos.

É humano fazer isso, mas no nosso caso, por dever profissional, por ética para zelar por aquele encontro no atendimento, temos que controlar essa nossa expectativa sobre os pacientes, diminuindo a chance de existir essas projeções. Sempre é bom tirar um tempo e se indagar: como eu vejo essa pessoa? Como eu reajo a essa pessoa? Eu tenho gatilhos com essa pessoa?

Outro ponto importante a se notar é que existe uma espécie de sabotagem ao tratamento. Mentiras, faltas, omissões, quebras de acordo, tudo isso pode ser formas de resistência ao tratamento. Até mesmo existem situações em que os pacientes tentam colocar os membros da equipe de atendimento multidisciplinar um contra o outro.

Pensando nisso, uma equipe que não tem meios adequados de comunicação, ou falta de confiança uma com a outra, há chances de ocorrer desinteligências. Esse é o meio forte de o paciente criar resistência.

Uma questão que emerge daí é por que motivos o paciente que tomou a iniciativa para procurar atendimento nutricional se sabotaria e resistiria ao atendimento. Imaginando que a pessoa está ali de livre e espontânea vontade, na verdade, há questões psicológicas agindo, uma vez que os transtornos alimentares pelos quais a pessoa passa levam a uma maior atenção dos pais perante aquele indivíduo.

E era essa a atenção que o indivíduo precisava. E caso o paciente melhore com o tratamento, todo aquele cuidado que os parentes tinham desaparecem, o paciente que está evoluindo vai ladeira abaixo.

O que podemos entender é que o comportamento do paciente, por mais disfuncional que fosse com a doença, naquela situação cumpria os chamados benefícios secundários. Um paciente anoréxico alega que não come para não engordar, sendo esse o motivo primário. Mas quais os motivos que estão por trás disso?

Os benefícios secundários podem ser essa atenção e zelo dos pais, perder essa situação pode levar uma ação de sabotar o tratamento. Piorar pode ser ainda mais interessante para o para o funcionamento psíquico da pessoa naquele momento.

Para resolver isso talvez não exista um caminho certo e garantido, mas algumas condutas podem ser interessantes. Uma delas é o nutricionista manter o cuidado de si, seja mentalmente, seja fisicamente. Isso pode ser através de tarefas como aprender organizar uma agenda, analisar se pacientes mais complexos estão em sequência, podendo desgastar.

Outra conduta simples, mas muito renegada, é profissional que não busca auxílio psicológico, não faz terapia. Esse tipo de atendimento pode ser inacessível pelo preço, mas se for possível é legal ter esse tipo de ação terapêutica


Texto escrito por Matheus Lisboa e Renata Torres - Diretores de Comunicação e Marketing (Assessores de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula ministrada pela Prof. Fernanda Scagliusi.

 
 
 

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