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Sindemia Global: mudanças climáticas e alimentação.

  • Foto do escritor: LANCA - USP
    LANCA - USP
  • 22 de jul. de 2022
  • 4 min de leitura

Em 2020, o mundo enfrentou uma das maiores pandemias da história mundial com o surgimento da COVID-19, porém algumas outras já eram silenciosamente vivenciadas há alguns anos, como a pandemia de obesidade, a crise de desnutrição e as mudanças climáticas se acelerando a cada minuto.

Dessa forma, em 2019, a comissão de obesidade da The Lancet, a revista médica mais influente do mundo, elaborou um relatório que une as 3 pandemias mundiais e as nomeia como uma Sindemia Global, ou seja, a “presença de dois ou mais estados de doença que interagem de forma adversa entre si, afetando negativamente o curso mútuo de cada trajetória da doença, aumentando a vulnerabilidade e tornando-se mais deletérios por iniquidades experimentadas”. Assim, a junção da obesidade, desnutrição e mudanças climáticas foi feita devido às suas interações e determinantes recíprocos e a urgência de soluções sustentáveis para elas, sendo esse o maior desafio de saúde para a humanidade e o meio ambiente no século XXI.

Quanto à obesidade, houve um aumento nunca antes visto em sua prevalência em todos os países nas últimas quatro décadas, sendo que nenhum país conseguiu ainda reverter esse quadro, isso se deve pela incapacidade dos sistemas alimentares de fornecer dietas saudáveis e equilibradas, tendo excessivo consumo de alimentos industrializados e ultraprocessados, ricos em gorduras trans, açúcar, sal e aditivos químicos, em contrapartida, os alimentos in natura são cada vez menos acessíveis.

Já a má nutrição indica um aumento no número de pessoas desnutridas globalmente, caracterizadas por uma condição fisiológica anormal devido o consumo inadequado, desbalanceado ou excessivo de nutrientes, seja pela falta de alimentos, no caso dos povos que sofrem de insegurança alimentar, seja pelo excesso de alimentos industrializados, ricos em energia, mas pobres em proteínas e micronutrientes.

Por último, as mudanças climáticas estão na iminência de se tornarem irreversíveis, acontecem de modo dinâmico, em rápida ascensão e com impacto em diversas áreas, incluindo a produção prejudicada de alimentos, tanto em quantidade quanto em concentração de nutrientes, visto que a variabilidade climática vêm afetando a vida e subsistência dos agricultores e suas plantações e as alterações na atmosfera tem diminuído os níveis de micronutrientes no solo.

Ademais, esses problemas atualmente encarados pela humanidade advém dos resultados dos sistemas adaptativos, criados pelos seres humanos, ao interagirem entre si e com os sistemas naturais. Devido ao fato dos sistemas humanos terem sido projetados de modo inibir os sistemas naturais, sendo baseados na máxima prosperidade econômica, no consumismo em excesso e na desigualdade de distribuição de recursos, gera resultados com prejuízo à equidade, saúde e bem-estar humanos e ecológicos.

Com isso, a permanência forçada dessa estruturação de sistemas humanos impulsiona a sindemia global, seus efeitos e causas, por exemplo, o meio como a alimentação, agricultura, uso do solo, desenho urbano e os meios de transporte são tratados atualmente só contribui para o contínuo desgaste dos sistemas naturais. Da forma como estão, o relatório culpabiliza os governos nacionais por criarem condições operacionais que contribuem para a iminência da Sindemia Global, através dos subsídios agrícolas que apoiam monoculturas e pecuária de corte e leite, ao invés de sistema mais sustentáveis, pelos investimentos rodoviários não priorizarem os meios de transportes coletivos, se as áreas livres no ambiente periurbano disponíveis são destinadas à indústria, no lugar de plantações de subsistência da população urbana, além do aumento excessivo da população, redução na biodiversidade, mudança nas práticas agrícolas e a intensa exploração dos ecossistemas, como na indústria madeireira e de mineração.

Notadamente, um dos sistemas mais complexos desse meio é o sistema alimentar, pois possui diversas inter-relações, o que o altera facilmente ao longo do tempo e não leva a uma linearidade de causas e efeitos. Assim, qualquer mudança em uma parte do sistema encaminhará mudanças nas regras implícitas e explícitas dos atores envolvidos. Nesse caso, foram estabelecidos cinco ciclos de interações que devem ser avaliados como fatores da Sindemia: de negócios, de oferta e procura, de governança, ecológico e de saúde humana, sendo que cada um individualmente e se relacionando com os outros impacta toda a cadeia de produção de alimentos, que tipo de alimentos são produzidos, o valor agregado a cada nível de processamento, as escolhas individuais e comportamentos alimentares, as políticas públicas necessárias a cada povo e o nível de degradação do meio ambiente.

Atualmente, os sistemas alimentares estão ficando mais industrializados e globalizados, com isso conseguem produzir alimentos em quantidade calórica suficiente para abastecer toda a população mundial, porém esse não tem sido um resultado real. É fato que as indústrias priorizam a produção de alimentos mais básicos e ricos em energia, mas com uma baixa densidade de nutrientes, sendo os principais as farinhas refinadas, óleos vegetais, açúcares refinados e produtos feitos com eles adicionados de aditivos químicos. Além disso, a degradação ambiental causada pelo sistema alimentar é enorme, com altos níveis de emissão de gases do efeito estufa, destruição da biodiversidade, manutenção da fome e deficiências de micronutrientes, com pioras consideráveis na pandemia, aumento da obesidade e doenças crônicas não transmissíveis.

Outro fator sindêmico que não pode deixar de ser citado é a carne vermelha, cuja produção atinge níveis preocupantes, devido ao aumento da demanda e consumo per capita, o que contribui para o desvio de alimentos dos humanos ao gado, para a emissão de metano e óxido nitroso, desvio de áreas de plantação para pecuária, sendo inclusive um fator de desmatamento. Desse modo, o consumo exagerado da carne vermelha é uma ameaça à segurança alimentar, um risco à subsistência das populações deslocadas pela expansão de terras para monocultura e um contribuinte para a poluição localizada dos efluentes e ar.

Portanto, os nutricionistas precisam converter a ciência da nutrição do foco em dietas e alimentação individual para as questões que envolvam todo o sistema alimentar, é necessário criar novas maneiras de pensar sobre nutrição e saúde e expandir as noções já existentes, mas ultrapassadas. Dessa maneira, a classificação convencional da nutrição como uma disciplina biológica deve ser reformulada pela visão sistêmica e o olhar holístico para que seja uma disciplina integrativa. Por fim, é essencial a participação social, com a conscientização da população sobre seus direitos para poder agenciar e lutar devidamente pelo cumprimento deles por parte dos governos.


Texto escrito por Renata Torres - Diretora de Comunicação e Marketing (Assessoria de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula ministrada pela nutricionista e doutoranda Nadine Nunes.

 
 
 

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