Teorias da Psicologia no Aconselhamento Nutricional
- Marhya Júlia Silva Leite; Tamiris Isabeli da Silva

- 22 de jun. de 2021
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A estruturação da saúde se deu devido à formação histórica do país, de forma que voltou-se, primordialmente, às ciências biológicas, assistência médica, centrado em procedimentos estritamente curativos e hospitalares.
No recorte nacional, o ensino voltado ao aprendizado de técnicas especializadas e fragmentado em relação ao universo que o contorna, como entender cada área como micro, ou seja, existindo uma dificuldade em entender o macro, a exemplo de entender uma pessoa com um indivíduo completo, passou a ser questionado nos anos 1980, no auge da crise econômica e social decorrente do modelo econômico excludente do Governo Militar.
Neste período houveram alguns rearranjos para políticas públicas, destacando-se a reforma sanitária, que culminou na criação do Sistema Único de Saúde (SUS) em 1988, junto à Constituição, e sua regulamentação em 1990. Acontecimento este que aproximou o Ministério da Saúde às questões pertinentes ao aprimoramento das graduações e forçando o ensino universitário a rever a formação profissional até o momento.
No curso de nutrição tal reestruturação ocorreu com o objetivo de obtenção de uma formação profissional comprometida com a efetivação dos princípios e das diretrizes do SUS, com destaque para a integralidade do cuidado, a interdisciplinaridade, o trabalho em equipe, assim como para adoção de metodologias ativas de ensino-aprendizagem.
Tal reestruturação buscou a formação de profissional com perfil generalista dentro do âmbito da Nutrição Social, em que destacam-se as contribuições para a construção do campo da Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva, que passou a referenciar a formação na graduação, assim como a produção de conhecimento comprometida com a formulação de políticas voltadas aos dilemas da realidade brasileira nesse terreno.
Esse processo se passou também na psicologia, que, assim como demais profissionais convocados ao trabalho no SUS, os psicólogos com formação direcionada ao exercício privatista e autônomo inseriram-se nos equipamentos de saúde com práticas descontextualizadas e pouco comprometidas com a vida concreta dos sujeitos ou população alvo. Desse modo, sobressaiu a necessidade de alteração da formação do psicólogo visando a um trabalho nos serviços de saúde que tomasse o homem e seu contexto de vida como alvo de ação, e não mais uma abordagem descontextualizada.
Dentro da necessidade de reestruturação da saúde, e com isso o trabalho em conjunto, a integralidade, o olhar ao indivíduo como um todo, existem as teorias da psicologia aplicadas à nutrição, em que o aconselhamento dietético tem sua fundamentação teórica em um modelo genérico de aconselhamento o qual, segundo Patterson e Eisenberg, foi estruturado a partir das linhas teóricas da psicologia.
Primeiramente temos o aconselhamento centrado no paciente, que se refere à uma abordagem que propicia ao paciente o desenvolvimento de valores positivos, contribuindo para um comportamento integrado. A visão que a pessoa tem de si mesma, no contexto do meio, determina seu comportamento, então as etapas neste processo devem colaborar para a auto-descoberta, em que, como características centrais do conselheiro, são listados a empatia e congruência. O enfoque centrado no paciente prioriza os fatos e condições atuais, no qual, situações anteriores, mesmo as estreitamente ligadas ao sujeito, como as relacionadas ao vínculo mãe-filho, ou outras situações problemáticas vividas anteriormente à atual, não são trabalhadas, mas sim aquelas que o indivíduo experimenta em seu tempo real.
Adiante, agora no aconselhamento gestáltico, temos que a ênfase desta linha psicológica é sobre o organismo como um todo, buscando equilíbrio, que é constantemente ameaçado por circunstâncias externas e conflitos interiores. Esta proposição engloba tomada de atitudes que colocam a pessoa em uma reconfiguração, compreendendo polaridades dentro do seu meio. Tais polaridades se evidenciam por meio de atitudes, posturas, comportamentos, reflexões, ações sobre saúde e doença, relações indivíduo-sociedade e relações interpessoais.
Ainda levando em consideração a teoria anterior, é importante pensar que do ponto de vista da nutrição, é necessário compreender os diversos significados que o indivíduo atribui às limitações da possibilidade do controle dietético para resoluções dos problemas relativos ao comportamento alimentar, ou seja, é interessante que o profissional leve em consideração o ponto de vista do paciente para conseguir enxergar suas limitações e, assim, estabelecer um vínculo.
Segundo o aconselhamento psicanalítico as pessoas são movidas por um desejo instintivo de satisfazer o prazer pessoal, em que a libido é a fonte de energia impulsionadora dos comportamentos que satisfazem o prazer. Esta linha teórica é fundamentada em Freud, que concebeu a estrutura da personalidade dividida em ID, ego e superego. O aconselhamento focaliza o ego, parte da personalidade em contato com a realidade exterior, sendo a sede do pensamento racional, que deve também influenciar no comportamento alimentar.
No aconselhamento racional emotivo há pretensão de que o aconselhamento ajude a pessoa a eliminar os pensamentos autodestrutivos, promovendo visões de si mesma mais tolerantes e racionais. Como as pessoas possuem poder e tendência para interagir em ambientes de irracionalidade e racionalidade, a emoção negativa decorreria de pensamentos irracionais, devendo o conselheiro, portanto, mostrar-se ativo neste tipo de relacionamento. O esquema A-B-C pode explicar como o indivíduo identifica ou classifica as consequências de determinados fatos, sendo A o fato, B a crença ou significado expresso por ele, e C a consequência. A exemplo de tal pensamento é a pessoa portadora de diabetes (A), que se torna profundamente infeliz (C) por ter de fazer algumas restrições em seu comportamento alimentar (B). Essa linha, então, pretende ajudar o cliente a reconsiderar e ressignificar os pressupostos sobre seus desejos.
Adiante, temos também o aconselhamento baseado em traços e fatores, linha mais empregada para auxiliar pessoas a fazerem escolhas educacionais e vocacionais, em que o conselheiro desempenha um papel privilegiado no processo, utilizando suas habilidades especializadas para ajudar o paciente a avaliar fatores implicados na solução de problemas e na tomada de decisão, sendo que nesta linha de aconselhamento as perturbações emocionais geralmente não constituem um fator significativo. No campo da nutrição caberiam como exemplos de clientes e situações, para os quais este aconselhamento se adequaria, tanto o atleta profissional, que necessita de orientação nutricional altamente especializada, como o indivíduo adulto, sadio, compelido a viver só, que busca orientação nutricional a fim de organizar de forma prática e racional o atendimento à sua demanda alimentar e sua rotina.
Por fim, há o aconselhamento behaviorista, que tem por objetivo principal a mudança do comportamento inadequado do cliente, em que, apenas o que é mensurável é considerado evidência de aconselhamento bem sucedido, enfatizando-se a definição e o alcance do objetivo, ainda que condicionado por meio de reforço positivo, como prêmios e elogios, ou negativo, em forma de punição e censura, pode-se entender que o processo ocorreu.
Agora, saindo das teorias da psicologia na nutrição, havendo um olhar sobre o aconselhamento nutricional em si, pode-se inferir que funciona à base da ideia de diferenciar a orientação mais prescritiva daquela que segue o modelo de aliança terapêutica, que garante a autonomia do paciente em realizar as próprias decisões.
A etapa inicial deste processo é a condução do relacionamento entre paciente e nutricionista para a formação de um vínculo, sendo de suma importância a escuta ativa e uma linguagem corporal que demonstre interesse e empatia nessa etapa. Como próximo passo há a ideia de encorajar o paciente para que se estabeleça uma tentativa de discussão sobre os problemas, ou seja, o nutricionista deve estar preparado com técnicas que facilitem o sentimento de conforto ao paciente, para que este possa aprofundar-se na discussão.
A preparação para a ação, levando em consideração que as duas fases anteriores seguiram cunho interrogativo, é uma fase que visa a elaboração de planos a fim de corrigir o problema, em que o próprio paciente auxilia na elaboração junto ao nutricionista, sendo, neste caso, que fornece muito mais autonomia ao aconselhado, extremamente importante o acompanhamento do nutricionista em encontros mais frequentes com o intuito de realmente agir na maneira de agir e pensar do paciente.
Desta forma, no aconselhamento nutricional é essencial que o nutricionista esteja disposto a conversar sobre temas que já foram conversados anteriormente, bem como sobre o procedimento como um todo, já que é necessário o preparo e paciência do profissional, por se tratar de mudanças que ocorrem de forma gradativa.
Texto escrito por Marhya Júlia Silva Leite e Tamiris Isabeli da Silva - Diretoras de Comunicação e Marketing (Assessoras de Produções Científicas) da Liga Acadêmica de Nutrição e Complexidades Alimentares da Universidade de São Paulo (LANCA - USP), baseado na aula feita pela Diretoria da LANCA em conjunto à depoimentos da Nutricionista Raquel Labonia




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